domingo, 13 de novembro de 2016

O dia em que recebi uma ligação pra avisar que meu pai tinha morrido

Ainda lembro da ligação. E do silêncio. Longo. Duro. Cheio de dor. Três segundos? Dez? Um minuto? Não sei. E, na sequência, um choro baixinho.
Mas foi o silêncio que me disse tudo.
Hoje, conversando despretensiosamente, fiz uma pergunta que acabou me levando pro dia 12 de novembro outra vez. O dia em que recebi uma ligação que dizia que meu pai tinha morrido.
Tem uma espécie de vazio aqui. Lembro da ligação, do silêncio, lembro que chamei minha supervisora e disse que meu pai tinha morrido e que precisa resolver as coisas. Ela me olhou sem saber o que fazer. As pessoas se aproximaram e falaram coisas. Mas não lembro das palavras exatas de ninguém.
Em casa, estavam há duas horas sem saber como me contar. E, na verdade, não contaram. Porque ninguém chegou a dizer nada. Eu sabia.
Desci, fechei o ponto e fiz as ligações necessárias pra começar a resolver. Tranquilizar a minha tia, irmã dele, minha mãe postiça. Ligar pro primo, sobrinho dele, que iria querer ir pra lá imediatamente. Avisar à minha irmã.
E andei. Andei muito, uns 40 minutos, quase uma hora, sei lá, numa velocidade de fuga, pensando em tudo. Na virada que era aquilo. Na porrada que era aquilo tudo.
Porque a gente espera. E se prepara. E na hora não adianta nada. Porque você não quer que aconteça. Não quer que acabe. Porque a gente ama tanto que acaba sendo egoísta pra caralho.
“Ele descansou”, alguém disse no velório. E eu respondi que não sabia que ele tava cansado. A pessoa ficou sem graça. E deveria mesmo. Não, camaradas, não digam isso de descansar. A não ser que a pessoa tenha 94 anos. Meu pai tinha 47. Descansar de quê?
Liguei o piloto automático. Cruzei os 70 km que nos separavam e cheguei antes do velório começar. Fui em casa. Alguém já tinha chegado com comida por lá e a burocracia já estava resolvida. Beijei minha tia, tomei um banho e fui para o velório.
Fiquei lá por intermináveis 16 horas. Sentado num sofá preto e frio.
No início da madrugada, as pessoas pararam de aparecer. Coloquei a esposa dele pra dormir numa salinha e deitei no sofá do salão ao lado do caixão. Não arredaria pé dali de jeito nenhum.
Deitado, olho no teto, peguei no sono. Dormi um pouco mais de 30 minutos. E sonhei. Sonhei com ele. Acordei e fui conferir se tava no caixão mesmo. Até hoje rio disso.
Antes do sol nascer, apareceu amigo dele. Era o motorista da prefeitura que o levava três vezes por semana para um tratamento médico. No dia anterior, não tinha podido ir e mandou um outro funcionário. Ele chorava muito e chorei junto com ele que eu nunca tinha visto na vida.
Chorei principalmente porque ele me falou do meu pai de um jeito que só poderia ser do meu pai. Contou uma história e riu entre as lágrimas. Depois, me deu um abraço e foi embora.
As pessoas foram chegando e eu perdendo conta dos abraços, dos beijos, das lágrimas divididas no toque dos rostos. O velório tava cheio e conversava mentalmente dizendo pra ficar tranquilo que não faltavam braços pro caixão.
Era uma piada familiar. Minha avó, mãe dele, sempre disse em sua sabedoria rústica que, na vida, a gente precisa ter seis amigos. Um pra cada alça do caixão. O resto é supérfluo.
Eu sorri um pouco comigo mesmo. Um padre chegou. Meu pai era católico e o padre falou umas palavras de consolo, fez uma oração, quase uma missa.
E, às dez da manhã, com um calor insuportável, eu disse que era hora de seguir.
“Vamos fechar.”
Antes, fui até o caixão pra dizer uma última coisa. Agradeci a todos e fiz um último pedido em nome dele. Que, depois dali, todos dessem uma boa risada em sua honra.
Se ele estivesse lá, certamente estaria fazendo piadas e amenizando um pouco o peso de tudo. Era o que ele fazia. Às vezes, dava raiva. Mas, naquele dia, entendi.
As pessoas choraram um pouco, todo mundo junto, como que reconhecendo que era isso mesmo o que ele faria. E a gente seguiu.
Foi pesado segurar naquela alça com a mão esquerda. Mas foi ainda mais difícil soltá-la. E ir embora. E chegar em casa. E dormir e acordar. E seguir.
Hoje, oito anos depois, pensei nisso. Nunca tinha olhado pra tudo assim em perspectiva.
Continua doendo. Uma dor diferente, mas que existe. Só que a lembrança de tudo se transformou numa coisa doce. Doce como ele. Porque, afinal, não é a lembrança da morte, é a lembrança dele.
Quando terminei de ouvir a resposta à minha pergunta hoje de manhã, suspirei e pensei na figura do meu pai. Eu não estava preparado lá e não estaria hoje. Ninguém está, acho.
E, num mês em que uma amiga perdeu o pai — uma pessoa muito querida pra mim e, de quebra, amigo do meu pai — , só consigo dizer que a gente sobrevive. Que dói, mas a gente sobrevive.
Aí, num momento de silêncio, num passeio qualquer ou numa simples pergunta, a imagem deles volta. E a gente tem vontade de chorar e de sorrir. É assim mesmo. É sinal que a gente sobreviveu.
Porque a gente espera. E se prepara. E na hora não adianta porra nenhuma. Porque você não quer que aconteça. Não quer que acabe. Mas acaba. E resta apenas seguir em frente.


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