domingo, 6 de novembro de 2016

As couves nos quintais

Era um sábado à tarde quando eu pisei no Rossão pela primeira vez.
Na estradinha bem conservada que leva até lá no alto da Serra do Montemuro, naquele pedacinho do concelho de Castro Daire, tirei uma foto em frente à placa que apontava a direção da aldeia. Sim, o clichê, não tem muito como fugir dele nessas horas. E, pra ser sincero, nem tentei.
Apesar do frio — fazia uns cinco graus — , sentia um pouco de calor. Sessenta e cinco anos antes, meu avô emigrara dali. Era impossível pra mim negar aquela lagriminha equilibrada na ponta da pálpebra. Afinal, sempre, desde criança, desde que me lembro de pensar numa viagem, queria visitar aquela aldeiazinha.
Na sala de casa tinha um recorte de jornal num quadro. Era uma matéria sobre o dia que o vovô Cal recebeu o título de cidadão rio-bonitense. No texto, que li muitas vezes ao longo da vida, a história do jovem que emigrou do Rossão para Rio Bonito.
Tanto tempo depois, quando fiz o caminho de volta, cheguei às ruas vazias do lugar. Como não tinha o contato de ninguém da família, fui sem nenhum aviso prévio. Podia dar um pouco errado, mas valia só ir até lá.
A aldeia tem 40 habitantes. No verão, a população local pode chegar a 800, com a chegada dos parentes pra festa do lugar.
Naquele momento, o vazio ainda maior nas ruas era por causa da missa. Estavam todos fechados dentro da igreja. Ou quase todos.
Quando tentei pegar a primeira rua que vi e avançar na aldeia, uma dupla de senhores de boné — um de bigode, o outro sem — me abordou.
“Sou da família Cal.”
E eles ficaram me olhando. Daí lembrei da história familiar de sobrenomes diferentes pra uma parte dos irmãos do meu avô e corrigi.
“Dos Félix. Cal Félix.”
Uma parte dos irmãos do meu avô ganhou, além do sobrenome Cal, um outro, Félix. Acontece que ninguém era Félix na família antes disso, foi um sobrenome inventado pelo biso Manoel.
Meu avô contava que um parente do pai dele, também Cal, tinha dado um calote na região. Pra diferenciar a família do caloteiro, o meu bisavô criou o Félix e passou e os filhos mais novos que meu avô foram batizados com Cal Félix. Com isso, uma parte da família nem tem o Cal no nome.
“Ah, sim, tua prima tá na missa.”
E eles desataram a falar de todo mundo que conheciam da família. Como ela estava na igreja — o padre só vai à aldeia uma vez por semana — era preciso esperar. Só que não era pra esperar parado, entendi logo.
“Vamos ali que vou mostrar as casas dos seus parentes”, disse o de bigode.
E andamos um pouco e ouvi algumas histórias. Eles me mostraram a casa dos primos e de um tio, mas não a que eu queria ver, a do meu avô.
Enquanto eles contavam, pensava que tudo o que eu queria era comprar uma casinha de pedra e poder passar as férias ali. Porque pisar naquelas ruas cobertas de gelo, ainda que vazias e quase assustadoras por isso, significava voltar às memórias construídas ao longo de uma vida inteira e me reencontrar com um passado que eu nunca vi, mas sempre soube que existia.
Os minutos passaram rápido e a (Henri)Queta saiu da missa. E foi impossível conter a alegria dela ao ouvir que era o primo que ela nunca tinha visto do Brasil.
“Vais dormir aqui.” Eu é que não ia discutir.
Passou a mão ao telefone, ligou pras irmãs que moravam nas cidades ao redor, combinou com todo mundo um jantar. Carne de porco pro forno, vinho aberto.
“Vai dar uma volta e conhecer a tua aldeia.”
A minha aldeia. Fui.
A noite chegou, o frio duro, o gelo no chão, as couves murchas no quintal, tantas lembranças que não existiam e que sempre existiram. E chorei um pouco andando por ali.
Disfarcei quando cruzei com a vizinha que levava um bolo até a casa da minha prima. Queria, na verdade, ver quem era a visita e levou um bolo que tinha acabado de fazer. Perguntou meu nome, falou do Brasil e do Rossão.
“Que bom que você veio.”
Fiquei com vontade de dizer que ela nunca tinha me visto e que aquilo não tinha sentido. Mas pensei por um segundo e tinha sentido, sim, foi bom mesmo ter ido.
Chegaram os primos e as primas. Um que jogava futebol. Outro gostava de videogame. Uma era silenciosa. Outra queria contar sobre todas as pessoas. “Os da sua idade moram em Lisboa.”
Comemos como se não houvesse amanhã. E bebemos enquanto a lenha queimava na salamandra e falávamos uma quantidade infindável de nomes de pessoas, que é o que famílias fazem quando se encontram: lembram de pessoas que morreram há tempos, falam de primos que ninguém conhece, contam histórias que todos repetem muitas vezes.
Demorei a dormir. Havia uma espécie de euforia difícil de passar. E quando o sono veio, pareceu durar nada. Os olhos abertos, o dia amanhecido, a casa no mesmo pique da noite anterior.
“Vamos ver a casa do teu avô.”
Fui. E, de novo, a pálpebra se esforçou muita pra equilibrar a lagriminha.
Fiquei olhando praquela casinha pequena, pras pedras, pro limo, pra tanto que tinha ali e dentro de mim. O sol até apareceu.
Entrei. Fiquei parado uns minutos.
Achei bonita. E achava bonita não por ser bonita, mas por ser.
As primas e o primo falavam sem parar e, em algum momento, perceberam que eu não tava prestando a menor atenção.
Se entreolharam e sorriram. Éramos todos cúmplices.
Fizemos uma foto juntos na porta, sorrimos mais um pouco, nos abraçamos e continuamos o assunto e o passeio.
De uma ponta a outra, me mostraram tudo. Contaram todas as histórias possíveis naquelas horas e, ao mesmo tempo, queriam saber de tudo que eu pudesse revelar pra eles sobre como era estar do lado de cá — do mundo e da família.
Algumas horas mais e nos despedimos. Eu com o coração meio apertado, já peguntando quanto custava uma casa daquelas de pedra por lá. Eles meio encantados com a visita surpresa.
Entrei no carro e desci a serra no mais absoluto silêncio. Pensando.
No meu avô vivendo ali. Em ter que ir embora — ele e eu. Em todos que viveram ali depois dele. E antes. Nos filhos do velho cal — que ainda era jovem — passeando por aquelas ruazinhas de terra, pelos campos. Naquela fonte de água. Na piscina que eles abrem no verão. Nas montanhas ao redor. nas couves nos quintais. Naquelas pessoas todas, naquelas casas todas. Naquelas histórias todas.
E pensei que era bom demais ter podido ir até o Rossão. Porque, afinal, não é todo dia que a gente se encontra com o passado assim.

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