terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Rumos

Saio de casa com tempo sobrando. Chego no ponto, entro na van, escolho o lugar. Rapidamente, enche e conseguimos sair antes do previsto. Primeiro destino: Rio Bonito.

Isso é raro. Tão raro que poderia ser o primeiro parágrafo de um texto que se passasse num cenário distópico.

Encosto, relaxo, começo a ler um artigo no celular e, quando me dou conta, estamos parados a alguns minutos no trânsito em algum lugar na gigante Itaboraí. Vai demorar mais do que imaginei, mas estou com tempo sobrando.

Isso já não é tão raro assim. Tem carro demais na BR-101, mas isso é tema pra outro texto que não vou escrever.

Chego em Rio Bonito, desço no ponto final, compro uma água e pergunto sobre a van pra Silva Jardim, um município vizinho a Rio Bonito. É um percurso que leva uns 15 ou 20 minutos de carro, meia hora de van e uns 40 minutos de ônibus. 

Ou que deveria levar.

A senhora que vendia água e cuidava dos horários da van disse que havia uma programada pra dali a 20 minutos. Tudo bem, estou com tempo, melhor ir no ar condicionado, pensei. E resolvi esperar.

Esperei. Esperei. Esperei. E esperei mais um pouco.

Já meio irritado, sol na cara, fui até a rodoviária pegar o ônibus. E esperei mais: 20 minutos de atraso por causa do sistema de biometria usado pela empresa de ônibus para os passageiros que têm direito à gratuidade.

Cinco horas depois de sair de casa, cheguei ao destino final, Silva Jardim. O passeio, viagem, ou seja lá como vamos chamar essa ida ao município, faz parte da preparação do livro “Lona dos sonhos, a história do Lona na Lua”, sobre o projeto sociocultural surgido em 2007, sobre o qual escrevi na semana passada. A cidade tem, desde 2015, um convênio com o projeto e possibilita a 200 crianças e adolescentes a participação em atividades artísticas e fui lá conferir e conversar com algumas pessoas.

Mas escrever sobre isso de novo? É. Só que quero falar de outras coisas. 

Além de escrever um livro, que já é um negócio por si só especial, a experiência da pesquisa e redação tem sido interessante em outros aspectos. Muito interessante, aliás. E isso rende mais textos do que o que cabe na história que estou contando.

Em primeiro lugar, o exercício da pesquisa relativamente livre. Digo isso porque, apesar da necessidade do uso de uma metodologia clara para o sucesso do trabalho, há certa liberdade das amarras acadêmicas.

Junto com isso, lidar com história oral pra valer é um desafio. Ouvir as pessoas, todos esses depoimentos que colhi, cruzar com as outras fontes, tudo isso tem sido um trabalho estimulante. É perceber a construção das memórias sendo apresentada ali na minha frente, ver o que se oculta, o que se mostra discretamente, o que grita na penumbra da fala, o que precisa ser dito.

E não apenas as questões formais são estimulantes nesse projeto. O grande impacto de participar dele é voltar a passar tempo em Rio Bonito. Nos últimos anos, as visitas foram constantes, mas rápidas. Dificilmente pra passar mais de uma noite.

Com o livro, passar mais tempo não era uma opção. Aí, muitas coisas se cruzam, porque contar a história do outro acaba sendo olhar pra dentro, olhar pra minha própria história, pras minhas questões.

No caso, olhar pra Rio Bonito, a cidade em que cresci e morei a maior parte da minha vida, a minha aldeia. A cidade que lembro colorida, com gente simples, crianças brincando, mariola e laranja na beira da estrada, o carrinho de batata frita na pracinha, sorvete barato e um monte de lojas de carro.

É claro que há outras memórias, não é tão simples assim. E, claro também, há lembranças tristes, problemas e coisas do tipo. Mas, depois de nem sei quanto tempo, andar pela cidade além do circuito casa-rodoviária-restaurante-amigos, me fez olhar pruma outra cidade.

Uma cidade diferente, que ainda é minha, meu lugar, mas não é mais aquela minha, aquele meu lugar. Uma cidade que se impôs nos últimos anos e que, agora, quica aqui no teclado esperando meus dedos pra virar texto aqui (quando virar, deixo o link aqui).

E vem uma sensação de novidade. Uma sensação de tomar uma estrada que vi no mapa, conferi o melhor caminho pelo Google Maps e preparei o melhor traçado com calma e afinco, fiz tudo como deveria. Mas, de repente, no meio da estrada reta havia uma rotatória com cinco, seis, sete, oito direções. Talvez mais, nem sempre os olhos alcançam todos caminhos.

No fundo, escrever sobre o Lona, é isso. É escrever sobre a lona e o que ela cobre e quem ela cobre. É também o lugar, os lugares, todos, pequenos e grandes; é falar das pessoas e por elas, deixar a voz delas ecoar dentro e fora de mim; perceber os encontros e desencontros das nossas vozes.

É, no fim, escrever sobre a nossa aldeia, sobre pertencimento, sobre aquele caldeirão todo que fez a minha geração e, agora, faz outras debaixo de uma cúpula estrelada. 

É uma viagem longa. Feita de idas e voltas, interessante, dolorosa, cansativa, agradável, emocionante, tortuosa, cheia de rotatórias, de curvas e algumas retas. 

Uma viagem ainda em definição do que é, mas, sem dúvida, muito diferente da que fiz até Silva Jardim.


O texto está publicado na minha página no Medium.

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