domingo, 21 de junho de 2015

"Obrigado, Leir" na Folha da Terra

Saiu ontem na Folha da Terra, do Alfonso Martinez​, lá em Rio Bonito, minha doce aldeia, texto meu homenageando o Leir Moraes, que morreu no último domingo. 

O Alfonso foi a primeira pessoa que me pagou pra escrever; o Leir, um cara de quem ouvi grande histórias. Aprendi muito com os dois no tempo em que estive lá. Segue o texto:


Obrigado, Leir - Rafael Cal

Eu era garoto, começando a trabalhar na Folha da Terra (2003, acho), quando entrei pela porta da redação e ouvi o batuque dos dedos nas teclas da máquina de escrever. Era Leir, sentado, datilografando um artigo pra edição daquela semana.

Coloquei um café pra nós dois e, me aproximando dele, perguntei, meio tímido, por que ele ainda escrevia a máquina. Ele olhou pra mim, cenho franzido e cigarro na mão, e respondeu que só a máquina dava vazão aos sentimentos de quem escreve.

Foi isso ou alguma coisa parecida. Afinal, o tempo passa e as palavras escapam da gente ou se misturam com outras, com imagens e coisas do tipo. Independentemente da exatidão da cena, achei um troço fantástico e sempre quis escrever sobre aquele dia. 

O momento apareceu, mas é pena que tenha sido numa hora triste como esta. Leir Moraes morreu no último domingo, aos 79 anos. Quando soube, só conseguia pensar sobre aquele dia, sobre escrever, sobre máquinas de escrever, jornalismo, literatura e boas conversas.

Encontrei com ele muitas outras vezes. Não que tenha sido íntimo, nada disso. Apenas aproveitei cada segundo daquele tempo no jornal pra ouvir histórias. Porque a verdade é que quem conta histórias deve, antes de tudo, saber perceber a boa oportunidade de ouvir histórias dos outros.

E era delicioso ouvir sobre política, jornalismo, Nelson Rodrigues, Niterói, Rio Bonito e meus avós (que receberam uma dedicatória belíssima na edição do "Bola de Gude" que guardo comigo). Todas contadas com a mesma simplicidade.

Por todas essas lembranças, posso dizer que foi um fim de semana menos feliz do que deveria. Se por um lado o LonaNa Lua​ reabria suas portas depois da reforma, representando uma celebração para todos nós militantes das palavras, das letras e das artes, partia com Leir um pedaço da boa escrita, da história da cidade e do antigo estado do Rio de Janeiro. Mas, mais que qualquer coisa, partia uma boa conversa.

Nessa hora de muitas homenagens, e ele merece todas elas, eu poderia desfilar aqui todos os cargos ocupados por Leir ao longo de sua vida e suas obras lançadas. Acredito, porém, que já fizeram isso. Este texto é, de alguma forma, um lamento.

Um lamento pela perda que a sua morte é pra Rio Bonito e pra todos os jovens riobonitenses que não ouviram suas histórias. Cronista de uma Rio Bonito (ou Serrado ou Prazeres) que já não existe há muito tempo, Leir foi o nosso Peixe Grande. E, certamente, suas histórias farão falta.

A mim, resta agradecer pelas conversas na mesa do jornal entre uns goles de café e a fumaça do cigarro dele. Elas foram muito importantes pra que eu continuasse escrevendo e contando histórias. Tomara que um dia eu possa fazer o mesmo por um jovem com vontade de escrever.

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