quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ruth de Souza homenageada mais uma vez


Segundo notícia daquele jornal azul e branco do Rio de Janeiro, a Imperatriz Leopoldinense fará um belo tributo nesse próximo carnaval: primeiros atores negros a pisar o palco do Municipal, Haroldo Costa e Ruth de Souza serão homenageados no desfile da escola.

Os atores estarão representados por Vinicius Romão e Elisa Lucinda, que serão Orfeu e Eurídice no carro “Vozes da Igualdade”, que saúda personalidades que lutaram contra o preconceito racial. Romão, pra quem não lembra, foi vítima de uma prisão injusta, em 2014, motivada também pelo velho e comum racismo, entranhado na sociedade e em suas instituições.

Em 2011, visitei a exposição Ruth de Souza, a Sacerdotisa da Dramaturgia, no Salão Guarani do Teatro Carlos Gomes. Escrevi o texto abaixo, que foi publicado pela finada Aguarrás. Como o arquivo da revista saiu do ar, republico aqui o que saiu por lá e que você pode ler aqui também.



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O release da exposição anunciava uma “uma retrospectiva da vida e da carreira da grande dama do teatro brasileiro, com fotografias, pinturas e objetos pessoais”. Porém, a exposição Ruth de Souza, a Sacerdotisa da Dramaturgia, em cartaz no Salão Guarani do Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, até dezembro, é mais do que uma retrospectiva ou um tributo a Ruth de Souza. Trata-se de um marco necessário na construção da memória e da identidade da sociedade brasileira.

A exposição que homenageia os 90 anos de Ruth de Souza faz parte das comemorações pelo Dia da Consciência Negra. Com curadoria do Museu Afro Brasil, de São Paulo, lugar onde estreou a exposição, apresenta uma excelente entrevista com a atriz, além de fotos de seus trabalhos, figurinos utilizados e homenagens recebidas.

Ruth nasceu no Rio de Janeiro em maio de 1921. Descobriu o teatro – ou o teatro a teria descoberto? – duas décadas depois, com Abdias Nascimento e Paschoal Carlos Magno, no Teatro Experimental do Negro. A partir daí, torna-se sucesso nos palcos e no cinema. Em 1954, disputa o Leão de Ouro, em Veneza. Não vence, mas vale lembrar que uma de suas concorrentes era a estrela em ascensão Katherine Hepburn.

Com uma carreira consolidada no cinema e no teatro, em 1969 passa a integrar o elenco da Rede Globo, tornando-se a primeira negra a protagonizar uma novela, em A Cabana do Pai Tomás. Desde então, participa ativamente das produções da emissora.

Ao visitar o Teatro Carlos Gomes, no centro do Rio, além do passeio pelo centro histórico, em processo de revitalização, o expectador pode observar um trabalho bastante interessante na composição da exposição. Toda a força dramática da atriz está expressa nas fotos, não se perde o frescor e delicadeza de sua atuação, ainda que congelada na tela. O rosto da atriz, na foto, no cinema, na tv, é a representação da população brasileira, com seus sorrisos e sofrimentos.

Contudo, apesar do cuidado acentuado em todo o trabalho de pesquisa e exposição iconográfica, merece destaque a recordação de outro aspecto da vida de Ruth: a luta contra o racismo. Isso está presente logo ao entrar no Salão Guarani: a primeira visão é uma entrevista concedida por Ruth de Souza à revista AfroB.

Aparentemente, é um texto longo, que, pode-se imaginar, desestimula o visitante, interessado em observar as fotos, prêmios e figurinos. Mas, basta um olhar mais atento para perceber a importância daquelas palavras. Seja na análise sobre a forma de tratamento ao negro no Brasil, independentemente de profissão, seja na fala sobre os jovens atores negros que explodem no Brasil, como Lázaro Ramos e Thaís Araújo. Em tempos de negação constante da existência de preconceito racial, é importante a posição expressa pela atriz. Sobretudo, considerando que se trata de um evento da agenda da consciência negra na cidade.

Assim, a exposição Ruth de Souza, a Sacerdotisa da Dramaturgia marca não apenas os 90 anos de idade da atriz, mas seus 65 de carreira e uma vida de luta contra o racismo. Vivendo em um país em que, muitas vezes, as personalidades se omitem diante de questões polêmicas, Ruth deixa sua marca. Faz lembrar sua personagem na novela O Bem Amado, Chiquinha do Parto, esposa de Zelão das Asas, lembrando ao público que não se destrói sonhos. 

Mais do que isso, permanece viva e ativa, sonhando com todos nós. Em 1986, homenageando a atriz em um artigo no jornal O Globo, Artur da Távola dedicou a “Ruth de Souza, atriz de importância proporcional ao seu silêncio e discrição, o abraço comovido do fã”. Faço minhas as palavras do jornalista.

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