quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O dia em que não encontrei Eduardo Galeano


Um conhecido que vai com frequência ao Uruguai, ao ser perguntado por mim sobre o que fazer em Montevidéu, deu uma dica que me fez abrir um sorriso:
- Há uma livraria na Ciudad Vieja, bem perto do Cabildo, em que o Galeano costuma ir no fim da tarde.
Galeano, o Eduardo. Aquele moço que você conhece do As veias abertas da América Latina. Ou da trilogia Memória do fogo. Ou do Livro dos abraços. Jornalista e escritor uruguaio, militante contra as ditaduras latino-americanas, voz progressista no continente.
As veias, pros mais íntimos, foi um dos livros que li no Ensino Médio e que me fizeram balançar um pouco e até pensar em ser jornalista. Livro lido por gerações e mais gerações sobre a história de exploração da América Latina. É uma daquelas coisas que servem pra sensibilizar o espírito adolescente pros problemas próprios e comuns aos outros. Não virei jornalista, mas virei professor de História.
Depois desse breve aparte, voltemos ao ponto central: o Galeano, segundo esse meu colega, frequentava uma livraria em Montevidéu. E eu estaria lá por quatro dias. Tinha, assim, quatro oportunidades de encontrá-lo e dar um abraço.
Não pense você que se tratou de uma espécie de estalqueamento. Não ia perseguir o cara, né? Mas se por acaso eu estivesse todos os fins de tarde na tal livraria, poderíamos nos encontrar espontaneamente numa dessas coincidências da vida.
Já comecei a me preparar desde a ida. Quase todas as conversas sobre a viagem passavam pela frase “me disseram que tem uma livraria que o Galeano frequenta na Ciudad Vieja”. Pensei no que dizer, em como dizer e, claro, como fingiria a surpresa do encontro.
Isso, porque logo veio à memória outro encontro. Um meio desastrado.
Em 2013, estava em Lisboa e fui visitar a Fundação José Saramago. Claro que não encontrei o Saramago, morto desde 2010. Na verdade, acabei bem perto dele, parando alguns minutos na frente da árvore sob a qual ele está enterrado, em frente à Fundação.
Naquele dia, depois de me perder pelas ruas da Alfama, bairro lisboeta, cheguei à Fundação perto da hora do fechamento. Havia lá uma obra grande na frente, bloqueando o acesso à entrada do lugar. Fiquei meio tenso pensando que estaria fechada e não poderia visita-la. Foi quando resolvi pedir uma informação a uma senhora que estava saindo lá dentro.
A senhora me explicou tudo, mas ficou um pouco espantada porque eu gaguejava enquanto repetia Obrigado! Obrigado! e deixava escorrer uma lágrima. Era Pilar Ruiz, a viúva de Saramago.
A lágrima se explica fácil. Saramago, por si só, já me deixa meio marejado. Além disso, toda vez que ouço falar de Saramago e Pilar, penso em José e Pilar, filme do Miguel Gonçalves Mendes, que virou livro também. E dá uma vontade de chorar um pouquinho de emoção.
Só que esse é outro assunto, pra outra hora. Contei essa história pra dizer que não queria repetir o jeito meio mané. Ia ser legal falar com o Galeano, deveria, então, falar alguma coisa mais que alguns gaguejos, alguma coisa inteligente, sei lá.
Acontece que meus planos não teriam uma vida muito fácil. Primeiro, a chegada a Montevidéu foi no fim da tarde. Até fazer o check-in, o comércio já estava todo fechado. Não deu nem pra achar a livraria.
No dia seguinte, saí do hostel após o café da manhã procurando a tal livraria. Não sabia o nome, a referência era “é perto do Cabildo”. Portanto, depois de encontrar o Cabildo, o desafio era encontrar uma livraria nas proximidades. E, claro, uma que se encaixasse naquela situação: não podia ser de qualquer jeito, tinha que ter um espaço pra sentar, um café, alguma coisa do tipo.
Essa parte foi a mais fácil. Tinha lá, bem perto do Cabildo, entre ele e o portal da Ciudad Vieja, uma livraria que se encaixava no perfil. Era a Puro Verso, na Sarandí com Bartolomeo Mitre, bem perto de onde estava hospedado. Livraria construída num prédio do começo do século passado, com sofás no térreo e um restaurante-café no segundo andar.
Para minha frustração, Galeano não estava lá. Entretanto, ainda era manhã. A dica era que ele aparecia lá no fim da tarde. Tinha algum tempo, então.
Hora de passear pela cidade. Durante as andanças, perto do porto, numa exposição fotográfica na rua, a epígrafe era um trecho do escritor. Achei um bom sinal e continuei o dia.
No fim da tarde, voltei à livraria. Olhei da porta e nada, ele não estava lá. Entrei, olhei o primeiro piso, subi o primeiro lance de escadas. Dali podia ver por cima das estantes de livros. Nada. Fui até o segundo andar e nada. Desci, sentei num sofá e peguei um livro pra ler enquanto esperava por ele. Mas ele não foi lá naquele dia.
A viagem seguiu e, depois de passeios noturnos e diurnos, no outro dia, fim de tarde, estava lá na livraria outra vez. Outra vez, ele não apareceu. Pensei em perguntar se era ali mesmo, mas quem sabe fosse um segredo e, ao perguntar, eu destruísse aquela possibilidade? Preferi não arriscar.
No terceiro fim de tarde, levei meu caderninho de notas e aproveitei pra começar a escrever sobre a viagem. E a possibilidade daquele encontro, claro. Escrevi, bebi um café, um café bem ruim, aliás. O Galeano não apareceu mais uma vez.
No quarto dia, já meio sem esperança, fui, pedi uma água com gás pra ocupar a mesa do andar superior e esperei pela repetição dos outros dias. Escrevi mais um pouco no caderninho e pensei naquele e nos outros dias em que não encontrei Eduardo Galeano na livraria até a hora de ir embora.
Aquela tinha sido a última oportunidade na viagem pro encontro. Não, não segurei a grande virada pro fim do texto, eu saindo lá de dentro e batendo de frente com ele na rua. Ou no aeroporto, noutro dia. Ou no mercado, fazendo compras, na fila do queijo. Nada disso. No dia seguinte, partiria pra Colônia do Sacramento e não voltaria à livraria tão cedo.

No fim das contas, não sei se era a livraria certa ou mesmo se o Galeano estava no Uruguai e em Montevidéu naqueles dias ou até se não era a senhora espanhola naquele outro encontro. Uma pena. Mas o que queria dizer pessoalmente dá pra dizer por aqui, porque só queria dizer Obrigado!, num agradecimento um pouco menos gaguejante e trêmulo do que aquele que dirigi à Pilar em Lisboa. Só não é possível ainda dar um abraço por aqui. Isso fica pra próxima.

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