quarta-feira, 2 de julho de 2014

Vamos ter muitas histórias para contar *

Como disse noutro texto, e é um clichezão, perdoem, futebol é um negócio mágico. Não mágico do ponto de vistas dos lances bonitos e das surpresas que aparecem e nos encantam também. Mas, sim, das possibilidades de fascinação: o futebol transcende o esporte. É mais que uma competição com um vencedor e um derrotado. Muito mais.
Sim, eu sei a torcida brasileira não vem ajudando muito. Já reclamamos todos disso. Os estádios se tornaram um grande cenário para não-torcedores com ingresso”, como disse o José Antonio Lima. Eu, que assisti a um jogo na Fonte Nova, reforço essa visão. Acontece que tem aquela tal mágica que falei.
De repente, a Copa no Brasil se tornou um fenômeno. Tem uma média alta de gols, excelentes jogos, grandes surpresas e, por que não contar isso, sem dúvida, o maior número de teorias conspiratórias. De mensagem subliminar a resultado vendido.
Assim, uma Copa do Mundo apontada como o maior fracasso de todos os tempos, como a vergonha do país, se torna um sucesso. Olha a mágica acontecendo. Aquela Copa que não atraía a atenção de ninguém, que não empolgava o brasileiro, ganha as ruas e toma o país inteiro. E não só o nosso país.
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Muito além das fan fests espalhadas pelos países participantes da Copa, temos, como poucas vezes, um envolvimento de lideranças políticas na torcida. Um dos mais expressivos é Luís Guillermo Solís, presidente da Costa Rica.
É bastante comum a presença de Chefes de Estado em competições internacionais. No Brasil, a polarização irracional que vivemos tem impedido um pouco essa participação. A presidenta esteve na abertura e talvez apareça para a entrega da taça na final. Indo ou não, será alvo de questionamentos, certeza.
Fora daqui, no entanto, os políticos têm se envolvido intensamente com a Copa do Mundo. Voltando ao que falava sobre Solís, estava pesquisando algumas coisas para o texto que escrevi sobre a seleção centro-americana, logo após assistir a Costa Rica e Itália, quando cheguei à sua conta no Twitter. O presidente costa-riquenho estava explodindo de alegria, comemorando a classificação da seleção para a segunda fase. As fotos mostravam a população comemorando em San José e ele mesmo em meio a toda a festa.
Alguns dias depois, após a vitória contra os gregos nas oitavas de final, Solís foi cumprimentado pelos presidentes de El Salvador, Honduras e Guatemala pelo Twitter. Falavam em um triunfo da América Central. E mais festa na Costa Rica. E mais fotos.
Na primeira fase, o casal real holandês esteve no Brasil para assistir ao jogo de seu país contra a Austrália. Detalhe: a viagem foi em caráter não-oficial. Quer dizer, grosso modo, que queriam ver o jogo da Copa sem muita perturbação com os protocolos e compromissos.
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Mas é na América que a coisa está alastrada. Além do presidente costa-riquenho, outros colegas do continente têm aparecido ligados ao futebol. No Chile, após a eliminação da seleção contra o Brasil, Bachelet adiou um pouco sua viagem aos EUA para receber a delegação de seu país. E fez questão de salientar que a população estava orgulhosa dos jogadores.
Por seu lado, Obama também mostrou interesse na Copa do Mundo. O presidente se deixou fotografar assistindo ao jogo entre EUA e Alemanha dentro do Air Force One e destacou a classificação da seleção norte-americana para as oitavas em discurso.
É do Uruguai, porém, que vem a maior cena de um chefe de estado na Copa do Mundo de 2014. Recebendo a seleção uruguaia eliminada pela Colômbia, Mujica ainda reclamava da punição a Luis Suárez e, questionado por um repórter, dirige palavras não muito doces à Fifa.
Tudo isso é só pra lembrar que estamos vendo a história ser escrita na nossa frente. Estamos vendo o futebol ultrapassando o campo e o esporte servindo como elemento de unidade. Alguns, muitos, na verdade, já perceberam. Solís é um deles, sem dúvida. Outros, ainda estão gritando que, enquanto você grita gol, alguém te rouba. Infelizmente, não encontraram a máquina do tempo pra retornar ao século XXI ainda.
BrUp5sJCIAAMYGw[1]Eu, por aqui, continuo insistindo: vou ter muita coisa pra contar pros meus netos no futuro sobre a Copa do Mundo do Brasil em 2014. Contar que os EUA pararam pra ver uma partida de futebol, que tem casal real escapando pra ver jogo, que o Mujica xingou os caras da Fifa, que a Argélia enfrentou a Alemanha com bravura nas oitavas de final, que a Costa Rica está nas quartas de final e seu presidente é um cara que comemora como qualquer torcedor. Que bom que eu estou vivo pra ver isso.
(Nota: as fotos de Solís na Costa Rica estão disponíveis no perfil do presidente; a foto no Air Force One é da AFP.)

* Texto escrito para o Ouro de Tolo. Pra conferir o post original, clique aqui.

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