sábado, 28 de junho de 2014

Vi no estádio: Bósnia e Herzegovina x Irã *



Acredito que nunca, em toda a história, um torcedor ouviu tantas risadas e viu tantos rostos assustados diante de uma resposta simples. O diálogo começava assim:
- Oi, tudo bem? Como você tá? Escuta, esse aqui é o Rafael, ele vai assistir Bósnia e Irã.
- Ele vai… Você vai assistir Bósnia e Irã?
- Vou.
Minha resposta era seguida por risos de todos os presentes. Até eu mesmo. Afinal, por que alguém vai assistir a Bósnia X Irã? A resposta é simples: porque quer assistir a um jogo da Copa do Mundo.
Não consegui entradas pros jogos no Rio. Perdi todos os prazos das primeiras ofertas. Na reta final, querendo assistir a um jogo da Copa, entrei na fila monstruosa do site da Fifa. Esperei, esperei. Apareceu a possibilidade de ir assistir a Costa do Marfim e Colômbia, em Brasília. Passagem cara, estadia cara, uma cidade que detesto.
Cuiabá também poderia ser legal. Não que houvesse bons jogos, mas era uma possibilidade de conhecer a cidade. Do Centro-Oeste, só conheço Goiás e Brasília. Além de porta de entrada do Pantanal, a capital do Mato Grosso é o centro geodésico, ponto mais central da América do Sul, como aprendi com os camaradas da geografia. Mais difícil ainda: passagens tão caras que nem quis pesquisar opções de estadia.
Diante desse quadro de compras na última hora e passagens caras, decidi apostar em lugares onde eu tivesse algum tipo de abrigo, como casa de amigos ou parentes. Sobraram Curitiba ou Salvador. Apostei, assim, numa grande pelada: aproveitando as férias, decidi e comprei passagem para passar uns dias em Salvador e ingresso a fim de ver Bósnia e Irã.
Quando comprei, a Bósnia ainda não era o fiasco que demonstrou ser na Copa. O Irã era só mais um dos asiáticos que vão passear nas Copas do Mundo. Duas rodadas depois, o time do Dzeko já estava eliminado e os iranianos tinham chances de classificação, apesar de não terem marcado gol até a partida em Salvador.
Em Salvador, tudo lindo. Confesso que sou fã da cidade. De cara, encontrei um aeroporto muito diferente do que vi da última vez que estive por lá, em novembro. Cheguei junto com o início do jogo do Brasil contra Camarões, por isso houve alguma demora em conseguir um ônibus, nada fora do comum.
No dia do jogo, foi fácil chegar ao estádio. De alguns pontos da cidade, partem ônibus especiais até a Fonte Nova. O único problema foi que, por conta dos bloqueios, o motorista aparentemente errou o caminho e quase saímos da cidade. Acabou sendo divertido: pudemos até ver o metrô baiano em operação e o ônibus inteiro aplaudiu. Um senhorzinho sentado ao meu lado disse que eu ficasse tranquilo, pois a volta enorme que estávamos dando era pra mostrar a cidade aos turistas.
A entrada não teve maiores problemas, ao contrário do que o Migão encontrou no jogo que assistiu por lá na Copa das Confederações. Talvez um problema de minha parte: deixei meu ingresso cair numa enorme poça de água e ficou inteiramente molhado, o que me deixou um pouco tenso até a hora em que a catraca foi liberada. Outro detalhe: entrei com água e biscoito. Passei pelo detector de metais, mas ninguém conferiu uma sacola que levava na mão.
fn2Mais uma vez, a grande maioria do público era de famílias brasileiras, o que criou um ambiente semelhante ao descrito por várias pessoas que foram aos jogos: tínhamos visitantes. Provavelmente, muitos estavam naquele espaço pela primeira vez. É legal que as pessoas queiram ir aos estádios. Para quem tá acostumado a ir, no entanto, fica aquele ar de torcida de vôlei. Com todo o respeito ao vôlei e a sua torcida, claro.
Como o estádio não estava cheio, desci do meu lugar e fui à área mais próxima ao campo. Muita gente fez o mesmo, o que acabou gerando uns clarões na parte de cima da Fonte Nova, lugar dos ingressos mais baratos, dando a impressão de que havia menos gente ainda do que fato estava lá. Não houve qualquer impedimento pra se fazer isso, já que osstewards estavam basicamente interessados em coibir o fumo na torcida.
Já posicionado no meu novo lugar, em pé, numa das escadas, assisti ao jogo junto com a torcida iraniana. E é aqui que discordo um pouco do que disse o Daniel Reis em seu texto sobre o jogo, talvez por estarmos em áreas diferentes da Fonte Nova. Não sei se é fácil de acreditar, mas foram eles, os torcedores do Irã, que, em grande quantidade, ajudaram a dar uma cara de jogo de futebol. Cantaram bastante e atraíram a torcida dos brasileiros para sua seleção.
Os brasileiros chegaram a começar um SOUBRASILEIROCOMMUITOORGULHOCOMMUITOAMOR, mas não conseguiram emplacar quando torcedores assopraram suas cornetas e gritaram “Irã!”.
O jogo foi meio morno, apesar dos quatro gols. O primeiro tempo foi sofrível. Sorte que o segundo deu uma animada, o que acabou salvando a coisa toda. A Bósnia foi sonolenta. Pareceu não fazer muita força pra jogar e fizeram três gols de pelada. O Dzeko pedia o tempo inteiro para a galera ir mais devagar. Tá certo, os caras já estavam eliminados, mas, apesar do problema com a arbitragem no jogo contra a Nigéria, foi a impressão que tive vendo os outros jogos da equipe também: uma certa dose de lerdeza. O camarada Simas falou sobre o “sangue de baratinha” deles.
E o Irã? Bom, o Irã é esforçado. Mas só. É uma seleção comparável ao Vasco-Modelo2014, sem o Douglas e o Edmílson. Entenderam o drama? Pois é.
Só que correram demais, o tempo inteiro, sem parar. O técnico Carlos Queiroz gritou, xingou, reclamou. Os iranianos tentaram, até deram umas porradas nos bósnios. Só que não foi suficiente. Tentando atacar, acabaram sofrendo três gols e pouco ameaçaram concretamente o goleiro adversário.
No fim das contas, quatro gols, média alta mantida na Fonte Nova, os dois eliminados. Para mim, um jogo visto numa Copa do Mundo – e, claro, mini férias em Salvador. Não sei se pareço muito maluco por ter ido ver Bósnia e Herzegovina e Irã, pode ser que sim. É uma questão de ponto de vista. A verdade é que não sei se vou estar vivo em outra Copa do Mundo no Brasil e, bom, já tenho alguma história para contar a meus netos sobre um jogo que vi naquela Copa espetacular que aconteceu no Brasil em 2014. Só espero que os outros avós deles não tenham conseguidos ingressos para a final.

* Texto publicado originalmente no Ouro de Tolo.

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