quarta-feira, 4 de junho de 2014

Eu, Bebeto e Romário *



A primeira coisa que uma é criança na vida é o seu time. Se não pra todas, pra muitas. Se não a primeira, uma das primeiras. Uma manifestação de paixão e de um amor eterno. Você não sabe seu nome todo direito, não conhece todos os parentes dos seus pais, não sabe o CEP de casa e ainda come massinha na sala de aula. Mas basta alguém perguntar “qual o seu time?” pra resposta sair de pronto. Vasco da Gama, eu dizia rápido.

Futebol sempre foi coisa importante em casa. Comigo, coisa de pai pra filho. E de avô pra pai. Somos uma casa de portugueses e vascaínos. Pra mim, assim como pra muitas crianças brasileiras, imagino, as primeiras memórias mais claras da infância estão relacionadas ao futebol. Ganhar uma camisa do Vasco com “Coca-Cola” escrito na frente e perguntar se não tinha uma do Guaraná Brahma é, e imagino que sempre será, história pra contar no almoço de família.
Entretanto, histórias do Vasco e de almoços de família na minha casa ficam pra outra oportunidade. Afinal, em junho de 1994, dias depois de completar nove anos, a criança que corria empolgada com uma bandeira cruz-maltina amarrada no pescoço e ainda comemorava o tricampeonato estadual incorporava uma outra torcida à paixão pelo futebol: sou Vasco e Brasil, dizia. Por aqueles dias, meu pai explicou como funcionava a Copa, falou que ia ser nos EUA, mas que eles não sabiam jogar bola, lembrou do Brasil X Uruguai das eliminatórias e me deu o álbum e as figurinhas pra colecionar. Minha tia deu uma tabela pra marcar os resultados dos jogos. Mal sabiam que estavam criando um monstrinho viciado na Copa do Mundo.
Assisti ao que pude. Dentro, claro, das limitações que uma criança de nove anos tem na vida, como sono aleatório, seriados japoneses violentos pra assistir e o tédio brutal que bate quando se encara um Alemanha X Bolívia arrastado. No Globo Esporte, depois da volta do Colégio pra casa, tendo visto ou não os jogos do dia anterior, ficava assistindo aos gols e reportagens sobre a Copa. A tabelinha ia sendo completada passo a passo e fazia questão de contar todos os resultados pro meu pai, pra minha tia e pra minha avó. E pra todo mundo que aparecia por lá. Pro carteiro e pro vendedor de picolé, todos os dias, inclusive.
Os jogos dos Brasil foram meio mornos. Ao menos é o que me diz a memória infantil. Por outro lado, minha casa andava agitada. Sempre todo mundo lá, casa cheia, pra ver os jogos. A TV velha, a imagem meio borrada e a gente gritando. Metade da sala xingava o Raí; a outra, o Zinho. Os lançamentos do Dunga eram acompanhados de um esse aí tá pensando que é o Gérson que só os adultos entendiam. Eu achava o Taffarel frangueiro, jamais me esqueceria do gol sofrido contra a Bolívia, em La Paz, nas Eliminatórias, por entre as pernas. Os únicos elogios eram pra Bebeto e Romário. Rússia, Camarões e Suécia: três jogos, duas vitória, um empate. Estávamos classificados e haveria mais jogos do Brasil pra ver.
E veio o jogo das oitavas de final. De novo, todos lá em casa. Dessa vez, pra Brasil e EUA. Hoje, fico pensando no quão surreal era aquele jogo ao meio-dia, num sol absurdo. Na época, só conseguia lembrar que meu pai tinha dito que eles eram fracos, que não sabiam jogar. Achava engraçado o Lalas e aquela cara de roqueiro e o Meola com aquela cara de filho de mafiosa de cinema.
Mas era 4 de julho. A festa era gigante. Aparentemente, tinham ido mais longe do que imaginavam. O jogo era feio, o Brasil jogava mal e os caras é que tocavam bola. Quase fizeram um gol no primeiro tempo. Automaticamente, Parreira recebia palavras doces do sofá da minha casa: retranqueiro maldito, vai ter que tomar gol pra aprender. Nós, as crianças, repetíamos retranqueiro maldito seguidamente, quase estabelecendo uma conversa toda baseada nas duas palavras.
Um pouco antes do fim do primeiro tempo, um barulho de espanto na sala. Numa jogada na lateral, agarra daqui, puxa dali, Leonardo acertou uma cotovelada violenta no rosto de Tab Ramos, jogador dos EUA. O juiz já chegou com o cartão vermelho na mão, tínhamos um a menos. Lembro do meu desespero, de um puta que pariu que soltei e que acabou não tendo um sanção, porque, afinal, puta que pariu, estávamos todos fodidos naquele sol de rachar, naquele calor da porra, no 4 de julho, num estádio cheio, os americanos imbuídos, íamos ser eliminados, íamos ser eliminados mais uma vez e íamos ser eliminados pelos Estados Unidos, aquele time dos caras que nem sabem jogar bola, que chamam futebol de soccer e que tomam leite no jantar.
O final do primeiro tempo ainda teve uma bola na trave (do Romário?). A jogada, porém, não mudaria o quadro geral. Veio o intervalo e a sala de casa era silêncio. Minha avó, vez em quando, soltava um vão perder, são muito ruins, vão perder e não quero ver ninguém chorando que nenhum de vocês ganha nenhum centavo com esse negócio de futebol. O começo do segundo tempo já trouxe um quase gol do Brasil e a sensação que deu, ao contrário do que poderia parecer, não era boa: aquele quase matava, parecia ser um traço de uma tragédia inexorável, a eliminação doída. Romário driblou o goleiro e, puta que pariu de novo, chutou pra fora. Vamos perder, pensei.
Só que eu era só uma criança. E o Romário foi gênio dentro de campo. Logo depois do erro, como que numa penitência, pegou a bola no meio de campo, arrancou em direção ao gol americano, os caras foram pra cima dele, eu fiquei de pé, Bebeto abriu na direita, eu ergui os braços, Romário viu, lançou a bola, coisa fina, a bola deu uma mascada, mas chegou perfeita pro Bebeto, Bebeto olhou pro Meola, tocou no cantinho, a bola chorou, puta que pariu, entrou no cantinho, no canto direito, a gente pulava na sala, a gente gritava, eu era uma criança boca suja, mas era gol do Brasil, ninguém tava preocupado com mais nada, a rua toda gritava, e o Bebeto olhou pro Romário e disse Eu te amo!, e, de repente, todo mundo na sala gritava Eu te amo!, e a gente comemorava sem parar, a rua comemorava sem parar, era o gol da vitória, era um a zero, mas não importava, era gol e os gritos do lado de fora e de dentro não paravam. Acho que o Brasil inteiro comemorava sem parar naquele dia.
Minutos mais tarde, o juiz apitou e estávamos nas quartas de final. Os jogadores comemoravam em campo e nós gritávamos outra vez junto com a rua inteira, quem sabe, com todas as outras ruas do Brasil. Eu e as outras crianças da família, nós e todas as outras crianças do Brasil, certeza, nos sentíamos parte daquilo. Na minha cabeça, era eu, Bebeto e Romário no ataque da seleção, aquela vitória era nossa. A Globo soltava a vinheta, o grito de Brasil! ecoava e a gente, na sala, ainda se abraçava e dizia um pro outro Eu te amo!.
Hoje, 20 anos depois, sei meu nome completo, conheço os parentes todos, não como mais massinha e continuo respondendo de pronto Vasco da Gama, sem dúvida. Tenho dificuldade pra lembrar meu CEP, confesso. A boca também continua meio suja, sobretudo durante uma partida de futebol. Mas, mais do que qualquer outra coisa, continuo vivendo esse amor descomunal, violento e alegre, alucinante e dolorido, que o futebol possibilita. E só consigo pensar que o esse tal de futebol é um negócio espetacular e agradeço todos os dias ao velho, que já não tá mais aqui, por ter me mostrado isso.

FICHA TÉCNICA
BRASIL 1 x 0 EUA
Local: Stanford Stadium, em Palo Alto
Data/Hora: 4/7/94, às 12h35
Árbitro: Joel Quiniou (França)
Público: 84,147
Cartões vermelhos: Leonardo, 41'/1ºT (BRA); Clavijo, 42'/2ºT (EUA)
Gol: Bebeto 28'/2ºT (1-0)

BRASIL: Taffarel, Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Leonardo; Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho (Cafu); Bebeto e Romário. Técnico: Carlos Alberto Parreira.
ESTADOS UNIDOS: Meola; Clavijo, Balboa, Lalas, Caligiuri; Tab Ramos (Wynalda), Dooley, Hugo Perez (Wegerle), Sorber; Cobi Jones e Stewart. Técnico: Bora Milutinović.

Aqui, o jogo completo:

* Texto publicado no Ouro de Tolo, na série especial "Meu jogo inesquecível". Para ler o post original, clique aqui. Além do meu texto, tem muita coisa boa lá, vai conferir!

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