terça-feira, 24 de junho de 2014

Às vezes, é bom estar do lado mais fraco *

Os especialistas já devem estar falando sobre as grandes joias da ótima geração costarriquenha para o qual eles haviam alertado há tempos. Com enorme naturalidade, devem estar falando sobre o estilo de jogo de Yeltsin Tejeda, Brian Ruiz, Christian Bolaños, Keylor Navas. Certamente, estarão ainda dizendo que não se poderia desprezar uma seleção classificada pela Concacaf, com eliminatórias duras, muito disputadas, com jogadores experientes, que disputam os campeonatos europeus.

Eu não sou especialista. Em nada, diga-se de passagem. Nada mesmo. Tenho dificuldade em acertar até a temperatura da água do chuveiro, que uso todo dia, há anos. E, na minha opinião de não-especialista, acho tudo isso uma imensa bobagem. Acho a Concacaf uma grande baba, apesar do México ser uma pedra nos sapato brasileiro.
Não conhecia a seleção da Costa Rica. Nunca assisti a nenhum jogo dela. No sábado, não vi a virada contra os uruguaios. Nem em 2002, quando o Brasil, já classificado, enfrentou na primeira fase a Costa Rica do Wanchope, que parece nome de cerveja artesanal metida a besta servida em barzinho da moda, me empolguei. Perdi um jogo cheio de gols e ganhei a uma noite inteira de sono naquelas madrugadas de Copa e relógio biológico desequilibrado.
Mas futebol é um negócio muito mágico. Sobretudo, quando você descobre a empolgação de torcer por times desconhecidos, fracos e dedicados. É uma outra face do esporte que pra muitos, há torcedores no Rio que tão aí de prova, é a verdadeira essência da coisa. Eu descobri isso há pouco tempo.
Explico: fui criança e me apaixonei por futebol numa época em que meu time ganhava bastante. Sou vascaíno e tenho 29 anos. Isso significa que, até os meus 15 anos, pude ver um tricampeonato estadual, dois títulos Brasileiros, uma Libertadores e uma final mitológica de Mercosul, entre outras coisas. Depois, um abismo: derrotas estúpidas, carência de títulos, dois rebaixamentos, campanhas cretinas.
Esse tempo no deserto ensinou algumas coisas. A primeira é: nunca elejam um ídolo presidente do seu clube. Nunca. Outra: é nas desgraças que a gente percebe o caráter de um homem. Se o aço é forjado na porrada, o torcedor é construído mais nas tragédias que nas vitórias. Sem a menor sombra de dúvida, amo muito mais ao meu time hoje do que 15 anos atrás. Sem a menor sombra de dúvida também, posso dizer que não gostaria de ter descoberto isso desse jeito, preferia talvez amar menos do que amo e ter continuado no rumo das vitórias e dos títulos. Até porque, é bom estar do lado mais forte, vitorioso, favorito e candidato a todos os títulos.
Agora, como essa quebra no texto pra falar sobre o Vasco tem a ver com a Copa do Mundo? Tudo, tem tudo a ver. Por exemplo, comecei a me interessar mais pela Seleção Brasileira, depois de muitos anos, no momento em que eles se tornaram saco de pancadas e chegaram à Copa das Confederações desacreditados. E, nesta Copa, tem sido bom torcer pelos mais fracos.
No jogo de hoje (ou ontem ou anteontem, depende de quando o texto subir e de quando você vai conseguir ler), Costa Rica e Itália se enfrentaram pela segunda rodada do Grupo D. O grupo era, numa daquelas expressões que o futebol eterniza e que os narradores fazem questão de repetir a cada três ou quatro piscadas de olhos, o da “morte”: três campeões mundiais juntos. O problema é que os campeões mundiais não eram campeões tão ameaçadores assim: Inglaterra, Uruguai e Itália.
A Itália, claro, era a força a ser respeitada no grupo. Chegaram trôpegos ao mundial, o que só os torna mais perigosos. Por outro lado, a Inglaterra é uma seleção famosa por ir às Copas do Mundo e voltar para seu país com grande velocidade. Ganharam uma Copa em casa e só. “Ah, mas, depois disso, eles chegaram numa semifinal de Copa do Mundo”, você poderia dizer. Tá certo, não vamos discutir, né? E tem ainda o Uruguai que, por mais simpatia que tenhamos pelo Mujica, é um time cansado, envelhecido e muito dependente do Suárez.
Nesse contexto, a Costa Rica chegou completamente desacreditada. Só que já na estreia deu uma sapecada nos uruguaios, 3 a 1. O mundo olhou pra zebra. No segundo jogo, uma vitória por 1 a 0 contra os italianos. Incontestável. Assisti torcendo pros caras, praquela rapaziada correndo atrás da bola e partindo pra vencer uma seleção quatro vezes campeã mundial. Até a Fifa desconfiou de tamanha disposição.
Foi bonito. É legal ver o futebol, e uma Copa do Mundo no Brasil, tocar tanto a população de um país. As ruas de San José, capital costarriquenha, foram tomadas de vermelho. Por favor, não é o comunismo tomando conta do continente, gente, é só uma festa. Mais legal ainda tem sido ver o entusiasmo de Luís Guillermo Solís, presidente da Costa Rica. Se você ainda não o conhece, dá uma olhada no perfil dele no Twitter.
Depois das duas vitórias, os caras se classificaram para a segunda fase por antecipação. Ainda resta um jogo contra os ingleses antes disso. Quem sabe mais uma vitória e o primeiro lugar do grupo? Seria fantástico. Eles continuarão sendo a Costa Rica, uma seleção sem tradição no futebol mundial, azarões na Copa, totalmente franco-atiradores. Mas seria muito interessante vê-los avançando. Por isso, vão, Keylor Navas, Bolaños, Brian Ruiz, Yeltsin Tejeda, vão!
E tomara que avancem o máximo possível. Vou torcer. Avançar o máximo possível significa, é claro, até enfrentarem o Brasil. Aí, chega, né? Sou muito grato pelo que a Costa Rica fez. Nesse dia 20 de junho, mais uma vez, a Copa do Mundo me mostrou porque gosto tanto de futebol. É esse negócio mágico e completamente imponderável. Claro que é bom ser o multicampeão favoritíssimo. Mas não nos esqueçamos que, às vezes, é bom estar do lado mais fraco.

* O texto foi publicado no Ouro de Tolo.

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