segunda-feira, 28 de abril de 2014

"A bailarina ou Inventário dos guardados na caixinha de música": análise crítica de Leonardo Simões



Este solo é apresentado por uma atriz, isolada pelo foco central do palco, vestida de bailarina, num traje propositadamente inadequado para o corpo e para sua idade (cerca de trinta anos, conforme será explicitado depois).

O texto de Rafael Cal (vencedor do Prêmio Dramaturgia na edição anterior do Niterói em Cena) alinhava uma sequência de memórias que estabelecem grande identificação com as lembranças de muitos dos espectadores. E a própria narrativa memorial problematiza o caráter real ou ficcional das lembranças. A propriedade dessa discussão fica mais compreensível quando se sabe que o autor é formado em Historia (isso foi dito no debate realizado no dia seguinte à apresentação do esquete), mas sua pertinência se revela desde o início como importante objeto para essa reflexão cênica quanto às questões de autoria (artística e existencial), o contraponto entre realidade-ficção, a construção do cotidiano, a refiguração do passado, as projeções do futuro, o destino, o desejo e a frustração. A cena não aborda diretamente esses temas, mas nos leva, pelos meandros da arte, a refletir sobre eles a partir da situação apresentada.

O que se apresenta inicialmente induz a uma percepção de um imenso risco (e coragem), sobretudo por parte da atriz Renat Egger, que consegue transitar bem pelo difícil fio da navalha estabelecido pelos limites entre o que ela diz e o que não diz, mas deixa entrever. O que poderia ser um solilóquio maçante ganha profundidade e interesse com algumas variações de tom e o uso de alguns movimentos pontuais de grande eficácia, tal como no momento em que a atriz rapidamente desce a parte superior do corpete. Revela-se, então, o sutiã da striper-prostituta que ela é, numa tensão entre essa realidade e a bailarina que constituía a matriz do que ela pretendia ser.

Paralelamente, há uma crítica metafórica às diversas formas de opressão, materializada na situação da menina que sofre o controle repressivo de sua mãe e do próprio método tradicional do ballet clássico. Mais do que a frustração pela ruptura, a memória dessas vivências e projeções infantis é tratada como o reconhecimento de uma continuidade possível diante das circunstâncias da vida. “Dançar na horizontal” é uma metonímia recorrente quando se aborda a relação sexual da prostituta com seus clientes. E, de alguma forma, o esquete sugere que, no ideal da bailarina (vítima de opressão e renúncias), ela se protege da crueza de sua vida atual.

Enquanto esse discurso se desenvolve, sob o constante sorriso exigido às bailarinas, mesmo com os dedos quebrados, a atriz realiza movimentos de dança e vai se desconstruindo lentamente, até o ponto em que se desloca do centro e, no foco da direita, assume a identidade da prostituta, mantendo uma estranha inquietação de deslocamento no olhar. Embora haja um trecho da metade para o fim que talvez provoque certa estagnação dessa tensão, a atriz apresenta bem o texto de Rafael Cal, que é pleno de vigor, ousado nos riscos iniciais de sua proposição cênica, e que aos poucos vai se estabelecendo para além do clichê inicial, culminando com uma frase de grande força poética, síntese de toda a cena: “E tudo o que me resta são esses momentos vazios, com uma janela aberta pro infinito.”


Texto originalmente publicado pelo crítico Leonardo Simões no site do festival Niterói EmCena.

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