domingo, 16 de março de 2014

Ainda somos tão jovens ou Sobre a volta da Rádio Cidade

Quando soube que a Rádio Cidade estava no ar outra vez, fiz uma viagem mental no tempo. Não foi preciso ouvi-la. A simples noticia da sua volta ao ar me fez, em alguns segundos, voltar a 2002, doze anos atrás, aos meus 17 e ao colegial. Eu e meus amigos tínhamos 17 anos, morávamos no interior e ouvíamos a Rádio Cidade.
Por conta disso, quis escrever um texto sobre pessoas que gosto, porque a volta da rádio significa, antes de tudo, a emergência de memórias felizes. Mas não consigo pensar nisso sem que soe piegas. Qualquer coisa nesse sentido parece comum demais pra ser escrito. Certamente, autores muito melhores, e muito piores também, já o fizeram, de sorte que já há toda uma gama de textos sobre o assunto. A maioria, não tenho dúvidas, é melosa, saudosista e piegas. Ou tudo junto.
E talvez devesse ser, pois como quaisquer adolescentes, coletiva e individualmente, sofríamos dores insuportáveis, tínhamos dilemas existenciais, vivíamos os amores impossíveis e pensávamos no que seria de nós pouco tempo depois, quando fosse preciso escolher a faculdade, a profissão, o rumo. Éramos filhos dos anos 1980 que não viveram os anos 1980, da tragédia amarga, das festas infantis que nunca ocorreram por causa dos planos cruzados da vida ou pelo confisco do Collor, uma geração de pais funcionários públicos, comerciantes ou desempregados. Éramos filhos de pais que diziam pra escolher uma profissão em que não fossemos empegados de ninguém, tínhamos de ser donos dos nossos próprios negócios. Tudo parecia tão definitivo, como sempre é aos 17.
Mas não era, como sempre se descobre perto dos 30. E não seguimos exatamente esse caminho dado, preferimos escolher coisas que nos pareciam mais divertidas. Naquela época e depois dela. Na verdade, havia preocupações maiores: os dilemas mais doloridos se curariam mais dia menos dia; os empregos existiriam quando fosse a hora. Urgente era sobreviver à escola e aos 17 e isso só era possível com uma dose de insanidade, de professores berrando, de guerrinhas com pedras de barro no pátio, de brigas por persianas abertas na sala, de mochilas escondidas, de pontos perdidos, de tachinhas nas carteiras, de “fart machines” irritando a professora de geografia.
A salvação maior estava nos finais de semana. Nos encontrávamos e falávamos por horas, comíamos e ouvíamos música. Na maioria das vezes, a Rádio Cidade nos acompanhou. Somos de uma geração que ouvia música no rádio, que a rádio era ouvida no rádio, sem internet em banda larga, com alguma internet discada na casa de um ou dois. Às vezes, o aparelho de tocar CD era acionado, mas quase sempre era preterido pela programação da Cidade.
Por isso, hoje, ao entrar no carro e ouvir a FM 102.9 outra vez, pouco importou que ainda estivessem tocando as mesmas músicas de 2002 ou que tivesse nos deixado na mão, órfãos por tantos anos. Não procurava novidades. Procurava, mesmo que inconscientemente, o passado, as lembranças, aquelas memórias tão bonitas. Porque, no fundo, crescer embrutece a gente. A criança morre dentro de nós. A gente tenta salvá-la todos os dias, mas ela morre lentamente, sufocada pelo bebê que nasceu, a viagem pra Europa, o doutorado e a prestação do carro.
Nessa noite, terminada como tantas outras com o dia quase amanhecendo, houve mais um reencontro. Mais um, tão necessário quando se é adulto. Sim, nos tornamos adultos, todos nós. A mesa do bar dividida tantas e tantas vezes, assim como o muro de casa e os bancos da varanda, de todas as nossas varandas, são uma espécie de templo, nosso templo. Nosso lugar de encontro e das nossas orações em forma de riso e provocação, doçura e virulência; é o copo transbordando, as garrafas suando, a comida espalhada. É a aldeia, nossa aldeia. É, enfim, o que deveria ser sempre.
Depois de tudo isso, tenho certeza que os mais velhos tinham razão ao dizer que sentiríamos falta desses tempos. De tantas gargalhadas. Voltei a 2002 e, eu que nem cheguei aos 30, senti, pela primeira vez, falta de ter 17 outra vez. Até tentei, mas a verdade é que não dá pra fugir da nostalgia pra falar disso. Afinal, algumas coisas são definitivas.

Um comentário:

  1. Muito bom Rafael! É tão bom quando a gente consegue identificar em um texto com pensamentos, sensações e nostalgias em comum. parabéns! JGB.

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