sábado, 1 de fevereiro de 2014

Um pequeno olhar sobre Portugal *


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O céu estava azul. Não um azul habitual aos meus olhos. Não o azul do céu azul inconfundível do Rio de Janeiro que vi, novamente, ao desembarcar no Galeão 30 dias depois. E o azul e sol do céu de lá enganavam: fazia frio. Muito frio.
Pela primeira vez, visitava a terra dos meus pais. Ser brasileiro e filho de portugueses, meu caso e de tantos outros, é carregar a eterna sensação de pertencimento a dois mundos completamente distintos e umbilicalmente ligados.
Estava na estação de trem havia dez minutos. Um turista, em Lisboa, tentando, em vão, passar despercebido. Por lá havia uma semana, tentava mimetizar certos comportamentos. Às vezes, porém, o olhar se perdia em tantas cores, tantas coisas, tantas gentes.
O cenário, ao fundo, lindo. Um aqueduto, casinhas brancas, algumas coloridas. Depois, viria a descobrir que estava numa região considerada problemática da cidade, com altos índices de violência. A estação, nem tanto. Um pouco suja e ligeiramente abandonada. De tempos em tempos, a voz feminina do alto-falante anuncia os comboios e os horários. Lembrava um pouco alguma estação mais afastada da Supervia.
Não havia funcionários. Na verdade, um segurança, que parece meio apressado na hora do almoço, e uma senhora varrendo o chão no andar térreo, longe das plataformas. Ela, terceirizada; ele, talvez. Os guichês, esses estavam fechados mesmo. Nem vulto. Bilhetes, só nas máquinas. Informações, num mapa afixado em um mural.
Os rostos se multiplicavam. E a plataforma se tornava um conjunto bastante heterogêneo. Rostos, cabelos, casacos. Muitos africanos, asiáticos e até portugueses. Todos muito bonitos. A construção estereotipada causa essa surpresa, pensei. A verdade é que nem todas tem a cara da vó Maria e nem todos são carecas, usam bigode e guardam o lápis atrás da orelha.
De fato, eram muito bonitos. Em todos os lugares por onde passei. Uma beleza, porém, diferente da brasileira. Talvez seja a nossa miscigenação. Ou pode ser o frio deles. Eram muitos casacos, gorros, cachecóis. As curvas se perdem, a ginga também. Sim, certamente, há uma ginga portuguesa, ainda que eles não saibam, ainda que não seja uma ginga stricto sensu. Há, e salta aos olhos, um charme típico do lugar. Todos diziam: você precisa vir aqui no verão. Pois é.
Voltando a estação, já eram quase trinta minutos esperando. Disse pra mim mesmo que só seriam possíveis duas explicações: um acidente grave ou o Metrô Rio estava operando a CP (empresa responsável pelo trem urbano que ia pegar). A voz que saiu do alto-falante respondeu: não era o Metrô Rio. Segundo a informação, um acidente com vítimas fatais causava o transtorno e tudo estaria funcionando normalmente em breve. Para alguns destinos, já eram 45, 50 minutos de espera. As pessoas pareciam resignadas. Sentaram-se, alguns no chão mesmo, e permaneceram esperando.
Inquieto, decidi encontrar outra maneira de chegar ao meu destino; não estava com muita disposição para esperar mais. Essa outra maneira passava pela necessidade de abrir um mapa no meio da plataforma. Tentei me esconder um pouquinho, movimentos curtos pra evitar o ridículo de me enrolar com o mapa. Certeza que foi em vão: todos devem ter percebido o sujeito meio desajeitado.
Em meu mapa, no entanto, não havia indicação do lugar pra onde deveria ir. Procurei umas cinco ou seis vezes. Nada. No mesmo dia, mais tarde, ficaria claro que o mapa que estava usando tinha alguns probleminhas com proporções e posições. Nada grave.
Depois de guardar o mapa, ainda naquela tentativa de parecer um local, me aproximei do mapa afixado no mural da plataforma. Procurei. Também não estava lá. Achei, por um segundo, que alguém tinha me sacaneado. No caso, o segurança da estação atrasado para o almoço que teria se divertido me mandando para um lugar que não existia. Ou talvez tivesse entendido errado, sei lá.
Mas a voz voltou, informando o atraso, dentre muitos outros, do trem que ia justamente para o lugar que eu deveria ir e que não encontrava no mapa. Repetiu a notícia do acidente. Decidi sair da estação e tomar um ônibus. Afinal, tem sempre um 638 (adapte para o ônibus da sua cidade famoso por dar voltas intermináveis por todos os bairros) para se tomar por aí e descer no lugar que a gente precisa.
Saindo da estação, incomodava a falta de pessoas no caminho. Havia apenas uma senhorinha, de quem me aproximei e perguntei pelo número do ônibus que deveria tomar. Bem pequena, óculos fundos, aros grossos.
Me olhou inteiro e perguntou, afirmando, se era brasileiro. Balancei a cabeça, sorrindo. Percebe-se, não sabem lidar com frio, vêm pra cá de algodão, tens que usar lã, disse. Não adiantou dizer que estava com uma blusa e dois casacos. Ela seguiu reprovando, falando do vizinho brasileiro, há oito em Portugal, que teve uma hipotermia. É preciso estar atento ao frio, concluiu.
Concordei com ela e acreditei ter perdido o direito à informação por não estar adequadamente vestido para encarar o frio. Mas, com um gesto de mão, ela pediu que eu a acompanhasse. Ia pegar o mesmo caminho que eu e ficamos esperando o ônibus. No ponto, lotado, desandou a falar. Chamava-se Adelaide e era professora de filosofia aposentada. Por ela, descobri que, além do problema nos trens, os motoristas de ônibus e de bonde estavam em greve. Era a explicação pro ponto cheio. É a crise, ela emendou.
Crise.
Ali entrava uma palavra que se tornaria recorrente durante o mês que passei por lá. Outdoors, placas e cartazes nas ruas, manifestações, greves, minicomícios, comentários nos cafés, dureza nas entrevistas dos deputados do PS na tv, charges pouco delicadas sobre a Troika. Sem contar os reflexos: muitos mendigos e muitos jovens pedindo doações para projetos sociais; no metrô, mensagens positivas e uma campanha para aumentar a autoestima; nos ônibus, em todos, a mesma propaganda sobre a loteria de fim de ano.

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Foi um suicídio, a senhorinha disse. Não entendi e ela explicou que o aviso dado pelo sistema de som da estação de trem era o padrão para suicídios. E que já era o segundo que ela tomava conhecimento naquele dia. Insisti no assunto e perguntei sobre a existência de estatísticas. Ela rebateu dizendo que não era necessário, bastava perguntar e a maioria dali provavelmente conhecia algum caso recente. Não pude confirmar, mas encaixava no que ouvia dela e no que ouvi e vi no tempo que passei no país. Foi dela, porém, a fala mais contundente de todas as coisas ouvidas. Desemprego cresce, a economia piora, o remédio, disse se referindo ao FMI/Troika, não faz efeito. As pessoas estão no limite e não há mais esperança. Não se pode exigir mais nada.Não se pode exigir mais nada. Foi a frase mais contundente que ouvi de alguém por lá.
Demorei quatro horas pra fazer um caminho que durava, em média, 40 minutos. Mas, de alguma forma, valeu. No ônibus, a senhorinha se foi e fiquei observando tudo com mais atenção. Pela janela, as ruas do subúrbio de Lisboa. Como o subúrbio do Rio, com mais casacos e menos ginga. Dentro, os rostos. Multicoloridos. Bonitos. E envelhecidos. Quem sabe, Copacabana, o Ver o Peso, a pelada no fim de semana, o ensaio da Portela, o churrasco, a festa no quintal, o mocotó no boteco, a rua e só a rua pudesse amenizar aquele sofrer e aquele cansaço. Porque era isso, aquela velhice nos rostos mais jovens era isso, era a desesperança. Efeito da crise, o fardo da crise, um fado silencioso no semblante dos portugueses.
Pensei em nós, brasileiros. No quanto somos diferentes dos portugueses. Talvez seja Copacabana, o Ver o Peso, a pelada no fim de semana, o ensaio da Portela, o churrasco, a festa no quintal, o mocotó no boteco, a rua. Talvez. É só a impressão de um turista, não um tratado sociológico. Mas, também, no quanto somos parecidos com os portugueses. No quanto esquecemos, dos dois lados, que somos parecidos e que temos tanto passado e tantos passados em comum. Quando os ouvia perguntando se eu iria aproveitar pra ir à Europa, como se Portugal não fosse Europa, era impossível não pensar em nós, brasileiros, nos referindo à América Latina.
Foi muito interessante ver um país ao mesmo tempo tão semelhante e tão diferente das memórias inventadas. Foi bom ver que Portugal é um país que se sofisticou e que atrai turistas de todos os cantos. Mas que, infelizmente, ainda não se deu conta da beleza absurda do seu rio Tejo, a ponto de estampá-lo por todos os cantos do mundo, vendendo-o como uma espécie de Baía de Guanabara lusitana. Foi bom ver os jovens e esquecer as velhinhas típicas personagens de documentários, que existem também, claro, mas dividem o espaço com uma gente cheia de vigor e disposição. O problema é a crise, uma crise de confiança, a desesperança desses jovens, sem saber muito por que caminho seguir. Foi bom ver que o país tem se miscigenado nos últimos anos. Mas foi triste ver os guetos também. Qualquer semelhança, com o Brasil de hoje ou de 20 anos atrás, como disse, não é mera coincidência.
É razoável olhar com tristeza para a política de bem estar social deles que começa a falhar, pra politica de austeridade e submissão que o país tem adotado. Pras lojas vazias e pros comerciantes a espera de um Deus ex machina que chegue pra comprar tudo, aquecer a economia, gerar empregos e solucionar os problemas econômicos e sociais. Só resta pensar que isso pode servir de alerta, que o Brasil possa construir bases mais sólidas pros direitos e conquistas, mas que os avanços não parem. Que o outro ensine alguma coisa com seus tempos duros.
E foi pensando em tudo isso que cheguei ao meu ponto e desci. O ônibus seguiu e, eu, a partir dali, submergi no mundo perfeito dos turistas em que tudo funciona e entrei no Mosteiro dos Jerônimos. Lá dentro, pensava ainda sobre os rostos e sobre o país. E que talvez Dom Sebastião (supostamente enterrado ali, coisas de Portugal) pudesse retornar para resolver tudo aquilo. O pensamento, no entanto, não demorou na cabeça. Mesmo porque as respostas não estão mais no passado. Se há um caminho para Portugal, certamente, está no futuro, no que se fará dele e na vazão que darão aos sonhos de toda uma juventude.
Uma juventude que hoje é triste e envelhecida. Mas que deseja ser alguma coisa.


* No último mês, fiz minha estreia no Ouro de Tolo. O site é comandado pelo economista, petroleiro, portelense e flamenguista, Pedro Migão. Tô lá com uma galera de primeira, vale a visita diária à página. Meus textos entrarão uma vez por mês. Clicando aqui, você pode acessar a postagem original do texto de janeiro, que acabei de reproduzir nesta página.

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