sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O armário embutido


Armários embutidos são uma afronta à natureza, pensou.
Sentado na cama, olhava o armário aberto. Dentro da parede. Antinatural.
A madeira escura, seria mogno?, os desenhos naturais, as dobradiças, o cabideiro, as gavetas. Estava tudo lá. Menos as partes dela.
Ou as que deveriam estar. Havia muitos pedaços. Restos. Cada esquina daquele apartamento guardava um pedaço dela. Todos espalhados. Deixados pelos campos. Como uma espécie de poeira invisível.
Mas sensível.
Ouviu a própria respiração. Achou que era o momento de fazer uma pausa. Não da respiração, do pensamento. Do pensar nela. Não conseguiu.
Desviou os olhos, deu de novo com a ausência.
Presente.
Havia um dentro da gaveta. Fechado. Etiqueta, papel vermelho. Intacto. Como que escondido dentro daquele armário. Embutido. Aquele presente ali, dentro da gaveta. Antinatural. Escondido, envolto pelo armário.
Não abriu. Nem abriria.
Ela deixara a caixa sobre a cama, enquanto fumava sentada na poltrona, perto da janela. A lua estava bonita. A luz que entrava pela janela deixava aquela cena mais bonita. Ela ainda mais bonita. Natural.
Ele viu da porta do quarto. Não queria entrar. Ou queria. Mas não conseguiu. Tinha medo de ficar envolvido.
Preciso te falar.
O rosto dela mudou. Natural.
Apagou o cigarro. Passou pela porta sem que ele conseguisse enxergar seu rosto. Nunca mais conseguiu.
Não precisa.
Tentou seguir o rastro dela. Falar. Viu as malas na sala.
Já tinha comprado, fica pra você.
Ele olhou pelo corredor pra caixa, embrulhada com papel vermelho e uma etiqueta que estava sobre a cama. Olhou de novo pra ela.
Espera.
Não posso.
Abriu a porta e saiu. Ele não pôde impedir. Ou apenas não fez. Ela fechou a porta. Ele encostou a cabeça na madeira. Escura. Parecida com a do armário.
Voltou. Não saberia precisar quanto tempo depois. No quarto, abriu o armário. Não havia nada.
Ocupara um pedaço pequeno do armário embutido. Fazia pouco tempo, era verdade. Tinha pouca coisa lá. Tinha pouco dentro do armário. Embutido. Tinha pouco.
Olhou outra vez para o presente. Não poderia. Colocou numa daquelas gavetas vazias do armário embutido.
E fechou a porta.
Tanto tempo depois, estava sentado. Na cama. A poltrona, vazia. Não havia lua aparente. Nem cigarro aceso. Olhava para o armário. Embutido. Dentro da parede. A madeira escura que não sabia o nome, os desenhos, o cabideiro, as gavetas, o presente ali, intacto. A porta estava aberta. Não sabia como ou por quê. Permanecia confuso. Olhando. Natural.

Nenhum comentário:

Postar um comentário