quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Martelando


Doía. Mas continuava a bater com o martelo nos dedos da mão esquerda.
O prazer se esvaiu. Entre os dedos. Antes do prazo.
O martelo comprado à vista num hipermercado qualquer. Pra bater um prego na parede. Pro prego segurar uma moldura. Pra moldura guardar uma foto. Pra foto.
Colocou a mão sobre a mesa.
Bateu a primeira.
Teve vontade de gritar. Mas não gritou.
De novo.
As pernas tremeram.
A terceira.
E a dor não passou. E continuava a bater pra ver se a dor passava. E não passava. E o martelo descia mais forte. E a dor. E o martelo. E a dor.
A carne sangrando. Como antes. Agora, a mão.
E a lágrima. No mesmo lugar.
O anel sobre a mesa, do lado da mão espalmada.
Doía.
E o braço fraquejou e o martelo desceu e errou a mão e acertou o anel.
Não teve vontade de gritar. Mas gritou.
E as pernas tremeram. De novo.
E continuou a bater pra ver se a dor passava. E o martelo descia mais forte. E a dor. E o martelo. E o anel.
E a carne sangrando. Como sempre.
E a lágrima. Em todos os lugares.
Deitou o martelo sobre a mesa. Como na gôndola do hipermercado.
Teve vontade de gritar. E gritou.
Doía.

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