segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A pele enrugada sob o chuveiro elétrico ligado


Ela olha para a água que cai do chuveiro.

Dizem que um chuveiro elétrico aberto durante quinze minutos gasta 145 litros de água. É o tempo que estou aqui tentando decidir o que fazer. Já se foram 145. 145 é o que no jogo do bicho? Não faço ideia. Nunca joguei. Até tenho curiosidade. Mas sempre me faltou coragem. Contravenção, né? Esse nome me assusta.

Olha fixamente para o registro. No caminho, seu olhar corta a água.

Uma vez sonhei com um chuveiro aberto. Como esse aqui, agora. Disseram pra mim que era um bom presságio. Mandaram jogar no bicho. Pavão. Nunca joguei no bicho. Morro de medo de bicho. De jogo do bicho. E de pavão. Tenho medo de aves em geral. Se eu ganhasse alguma coisa jogando numa ave, não sei como continuaria vivendo. Se uma ave trouxesse bom presságio, talvez o mundo deixasse de fazer sentido pra mim. Como esse chuveiro aberto.

Estica o braço. Recua.

Já tentei desligar. Não consigo. Foram três tentativas até agora. Nenhuma funcionou. Três é o que no jogo do bicho? Não, não. Preciso me concentrar. E desligar o chuveiro. Se alguém chegar, como vou explicar a situação? Não vou explicar. Não vai chegar ninguém. Nem o apontador que fica sentado aqui na frente do prédio. Ninguém. Moro sozinha. Talvez só me reste esperar a água acabar.

Desvia o olhar. Girando o rosto, vê o céu escurecendo por uma fresta do basculante.

Mas não vai. Moro num prédio. Acho muito improvável que acabe a água só por causa de um chuveiro ligado. E acho que nunca mais vou consegui sair daqui. Nem pra ir fazer um último jogo.

Vê um pouco da sua imagem refletida.

A pele enrugou. Já lavei meu cabelo três vezes, o braço esquerdo mais vezes que o direito e meu rosto tá ligeiramente ressecado. O que é três no jogo do bicho? E o chuveiro tá aqui. Aberto. Queria um psicanalista ouvindo isso. Quem sabe pudesse me ajudar. Ou me indicar um número pro jogo. Ou um animal. Animal não, bicho. Talvez fosse uma ajuda. Já sei, já sei. Deve ter a ver com minha infância. Ou com alguma frustração sexual. Ou deve ser uma compulsão. Devo ser aquela parte das estatísticas propensa à compulsão. Olha eu fazendo apontamentos sobre mim. Apontamentos. Jogo do bicho. Como sou clichê. Devo precisar muito de análise.

Fixa o olhar por alguns segundos num azulejo trincado.

Bobagem. Não, não preciso de um terapeuta. Posso fingir que presto atenção em mim sozinha. E até escolher meus números.

Não pode. Mas não sabe. E o chuveiro elétrico permanece aberto. E o basculante também. E o céu escurece aos poucos. E a pele já assusta um pouco. E ninguém aparece. Nem aparecerá. Nunca.

Então, resta a ela se conformar com o azulejo trincado, escolher números pro jogo que não vai fazer, ter medo de aves e esperar. A pele ficará ainda mais enrugada. E a água não vai parar de cair.

Um comentário:

  1. Agora sim. Gostei muito do texto, senti a agonia da mulher.

    ResponderExcluir