terça-feira, 21 de agosto de 2012

Breve intervalo nos dramas cotidianos: O dia em que descobri o Vasco



Aproveitando o aniversário, um texto sobre o dia em que me descobri vascaíno.

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O dia em que descobri o Vasco

Todo mundo gosta de dizer que viu seu time ser campeão ou que lembra de um jogo espetacular. O problema começa quando o cara quer que você acredite que ele lembra com detalhes de um jogo do time dele quando tinha três anos. Ou que aos quatro sofreu profundamente com a eliminação da seleção de alguma Copa do Mundo. Num mundo em que existe Youtube e Wikipédia qualquer um constrói a memória que desejar. É só uma questão de pesquisar bem.
Quando penso na minha primeira lembrança do Vasco, gostaria de dizer que foi o gol do Sorato contra o São Paulo, no Morumbi, e a conquista do bicampeonato brasileiro, em 1989. Mas eu só tinha quatro anos e, se fosse lembrar de alguma coisa, provavelmente seria do nome dos meus bonecos do Comandos em Ação. Futebol era bater bola no quintal com as crianças da família, usando a camisa com a cruz de malta e dizendo que era o Dinamite. Mesmo que nada fosse racionalizado. Quem gostava de colar o ouvido no rádio e reclamar de todos os jogadores era meu pai. No quintal, era apenas uma criança. Uma criança vascaína, claro. Sem, no entanto, a devida tomada de consciência.
Mas, com o tempo, as crianças vão crescendo. E mesmo crianças, começam a entender um pouco aquele mundo dos adultos. A paixão começa a fazer sentido, ainda que, de fato, ele não exista nela. Todos os palavrões dirigidos ao cara que deveria cuidar do bom andamento da partida, passam a fazer sentido ao passo que as ligações de alguém com o mundo crescem. A brincadeira no quintal vira a pelada na rua ou no recreio com os amigos. Essa passagem de tempo e a mudança de impressões sobre o mundo transformam duas horas ouvindo o rádio ou em frente à televisão em um tempo extremamente prazeroso. Antropólogos e psicanalistas, essa parte é com vocês.
A verdade é que o primeiro jogo que me lembro de torcer foi um Vasco X Flamengo. O ano era 1992, eu já tinha completado meus sete anos, já sabia ler e escrever, escalava tranquilamente o time e, pela primeira vez, parei para acompanhar um jogo com prazer. O jogo era o último do campeonato carioca, disputado em São Januário (o Maracanã estava fechado depois da queda da arquibancada no brasileiro), não valia nada além da invencibilidade: o Vasco já era campeão antecipado, vencera a Taça Guanabara e a Taça Rio.
Acontece que a invencibilidade era a maior questão em jogo ali. O campeonato estava decidido, mas se ao Flamengo cabia o papel de carrasco, impedindo o título invicto de seu grande rival; ao Vasco surgia a possibilidade de ser campeão invicto sobre o rival, esfregando a faixa nele. E foi essa a tônica do jogo.
Ouvindo pelo rádio, minha memória não se construiu em imagens, mas nos gritos do narrador e da torcida. Obviamente vi as imagens depois: o programa de qualquer criança dos anos 1990 era chegar da escola e almoçar assistindo ao Globo Esporte. Algumas carrego até hoje vivas, como o Luisinho baixando a porrada em qualquer jogador de vermelho e preto no meio-campo, o Júnior descontrolado e o Edmundo voando em campo. Era um Vasco com pregos nas chuteiras. Mas aquela primeira lembrança, sonora, da torcida gritando, dos trepidantes descrevendo o jogo, do grito de gol, do Animal, da tensão no empate, nunca me abandonou. O Vasco empatou (1 X 1) e foi campeão carioca invicto.
Naquele dia, no distante dezembro de 1992, o Vasco da Gama chegou a minha alma. Isso deve ser um clichê enorme, mas aquela criança correndo enlouquecida pela rua com a bandeira amarrada como capa pode confirmar minha história. Ela existe até hoje. E aparece toda vez que um certo time carioca entra em campo com a cruz de malta no peito.

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