quinta-feira, 19 de julho de 2012

Você não quer saber


Cumprimentaram-se como se tudo fosse de açúcar.
Ela perguntou como estava.
Não houve resposta imediata.
Ela engoliu a pergunta. Ele soltou o ar.
Olhou pro lado. Contemplou o rosto dela por alguns segundos. Ela esboçou um sorriso.
Era frágil.
O rosto.
Ela.
Ele.
O todo.
Eram frágeis.
Você não quer saber, pode ter certeza, ele respondeu.
Silêncio.
Pensou que ela jamais desejaria ouvir. Nem uma parte. Nem uma parte minúscula do todo. Não queria saber do choro. Ou do incômodo. Dos incômodos. Ou das angústias. Centenas. Melhor, milhares. De todas as feridas. Abertas. Em cicatrização. As que nunca cicatrizariam. Não queria saber de nada daquilo.
Você quer saber alguma coisa boa, disse. Quer um sorriso, quer que eu diga que vai ficar tudo bem, quer um futuro bonito, completou. E poderia seguir dizendo outras coisas. Sabia o que ela gostaria de ouvir. No entanto, saber não é garantia de que as coisas vão dar certo, pensou sem querer.
Era isso.
Ela ficou em silêncio. Ele estava certo. E, certo, também ficou em silêncio.
Queria a ausência de problemas, que tudo desse certo. Seja lá o significado de dar certo. Queria um pouco de prazer. Ainda que passageiro. Mas um prazer passageiro que se fingisse de eterno. Preferiria mil vezes uma mentira que a pudesse fazer feliz. Ainda que tudo fosse provisório, ainda que a felicidade fosse provisória, ainda que a felicidade fosse falsa. Felicidade falsa é o quê?, não conseguia entender, não é felicidade?, não é um tipo de felicidade?, seguia adiante. Apenas no raciocínio. A verdade é boa pra quem sabe lidar com ela, costumava pensar. A vida já havia sido muito dura. Tantas frustrações. Centenas, milhares. Era incapaz de dizer. Mas eram muitas. Mais do que achava normal. Mais do que achava suportável. Mais do que podia ser. Tinha feridas abertas. Muitas. E incômodos. E angústias. A alma em carne viva sem que houvesse um mertiolate mágico.
Não posso te dar isso, ele se desculpou. Ou ela. Ninguém saberia precisar.
E se despediram.

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