domingo, 29 de julho de 2012

Sobre a importância das boas lembranças


Depois de desenterrarmos o avô, procurei o relógio nos bolsos do seu paletó.
Era noite. Naquela tarde, havia sido o enterro.
Não conseguimos chegar a tempo: eu e meu irmão, únicos parentes vivos, e Ana Teixeira Soares, que não era da família, mas gostava de ir a enterros.
As tarefas do dia atrapalharam: tive que ir ao supermercado, meu irmão levou o cachorro pra passear e Ana Teixeira Soares teve um enterro mais cedo e acabou se atrasando.
Felizmente, considerando meu avô, o enterro estava cheio: havia duas pessoas, o coveiro e um bêbado. O padre se recusara a ir. Alguns pedreiros de uma obra próxima ajudaram a carregar o caixão.
Esperamos a noite para entrar no cemitério. Achávamos importante preservar alguma lembrança do meu avô: ao desenterrarmos, peguei o relógio; meu irmão, os anéis.
Enquanto isso, Ana Teixeira Soares cantava em lálálá a Ave Maria. Afinal, em poucos minutos haveria outro enterro.


* A partir da frase inicial proposta por Otto [falta o sobrenome],
numa experiência literária realizada sob a supervisão de Marcelino Freire.

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