terça-feira, 10 de julho de 2012

Gosto


Tinha um gosto peculiar.
Gostava de se desculpar. Por isso, fazia as maiores barbaridades.
No jardim de infância, pediu um biscoito ao colega de mesa. Não, foi a resposta. Foi quando ele pegou pacote da mão do menino e enfiou dentro de sua boca. A professora repreendeu.
Desculpa, ele disse.
Um pouco mais velho, durante uma festa de família, chutou a bola na tia-avó que só dava meias de presente no Natal.
Desculpa, tia.
Cresceu. E continuou se desculpando. De fato, gostava.
Deixou a mão esbarrar no peito da menina da mesma sala. Prendeu um sinalizador na pata gato. Colou a porta dos armários. Comeu o último pedaço do doce. Colocou as garrafas debaixo da roda do carro estacionado. Dedurou as notas do irmão. Encheu o aquário de comida pro peixe, misturou rivotril na do cachorro e anfetaminas na da mãe. Cortou o cabelo da irmã enquanto ela dormia. Amarrou uma linha na asa do passarinho pra brincar de soltar pipa. Trocou os remédios do avô. Atropelou um mendigo.
Me desculpe, foi sem querer.
Foram suas últimas palavras. Me desculpe, foi sem querer. Repetiu. Me desculpe, foi sem querer. Outras vezes. Me desculpe, foi sem querer. Cada vez mais alto. Me desculpe, foi sem querer. Gritando. Me desculpe, foi sem querer. Havia deixado o carro bater no da frente.
E não adiantaram os pedidos.
Disparou uma única vez.
Foi suficiente.
E foi embora sem pedir desculpas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário