quarta-feira, 18 de julho de 2012

Breve intervalo nos dramas cotidianos: Deus da Carnificina


Crianças brigam na rua. Pais ficam sabendo. Pais se metem. A briga, que possivelmente seria esquecida, torna-se um problema de grandes proporções. Pais contra pais, numa defesa ferrenha de seus filhos. Bem-vindos de volta à infância. E bem bem-vindos a “Deus da Carnificina” (Carnage, no original), de Roman Polanski.
Dessa forma começa o filme do diretor polonês, baseado na peça Le Dieu Du Carnage, escrita por Yasmine Reza: com um episódio familiar ao espectador, com crianças, brigas e pais. Afinal, quase todo mundo lembra de uma intervenção desastrada dos pais em um assunto que não precisava de intervenção. Não é?
No filme, os pais se encontram para resolver a situação: de um lado, Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), pais do menino que bateu; do outro, Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), pais do garoto que apanhou. O encontro se dá no apartamento do menino que sofreu o ataque, cenário em que se passa quase a totalidade das ações. No entanto, não há a presença dos envolvidos. O que acontece é uma reunião entre os pais, uma conversa entre adultos, para solucionar o caso da melhor e mais civilizada maneira possível.
É nesse ponto que a mão de Polanski aparece para mostrar que quando gente civilizada senta a mesa pra decidir como resolver problemas causados pelos ditos não-civilizados, o problema fica maior ainda. A partir do confinamento proposto, o diretor usa a câmera de maneira a oferecer pontos de vistas variados e tensionar ainda mais as relações que se dão no microcosmo do apartamento, apontando ao espectador um comportamento cada vez mais instintivo dos personagens. Com isso, os gestos e discursos programados caem, dando lugar a reações mais primitivas, e o trabalho espetacular do elenco serve como mecanismo para a direção explorar as distorções dos limites éticos e das relações.
O filme tem enfrentado alguma resistência. As principais críticas consideram o filme inferior ao espetáculo teatral ou acham pouco cinematográfico. A necessidade de criar rótulos para a arte sempre me pareceu muito chata. E não se trata do discurso batido de que “rótulo é pra remédio”, mas sim de pensar em cada obra de uma maneira única, sem tentar enquadrá-la em uma classificação qualquer a priori. Em alguns momentos, parece que quem escreve sobre arte precisa classificar pra entender e só depois falar sobre. Pode ser clichê (dos grandes!), mas arte independe de compreensão objetiva.
Todavia, não parece ser o caso de se pensar em dificuldade de compreensão objetiva da obra. Parece mais uma implicância com a forma. É inegável que, apesar do papel fundamental do texto no filme, a direção imprime uma marca ao trabalho, jogando com os limites impostos pelas paredes do ambiente, com a câmera e com a inclusão de cenas inexistentes na versão teatral. O filme, como um todo, fica ainda mais interessante se lembrarmos que o projeto foi elaborado durante a prisão domiciliar a que Polanski foi submetido em 2009.
Cabe ressaltar, por fim, que meu ponto de vista é carregado de comprometimento. Não assisti a versão no teatro, sucesso nos EUA, na Europa e também aqui no Brasil, dirigida por Emílio de Mello. Vi apenas o filme, definitivo pra mim, que trouxe à lembrança uma citação feita com frequência por minha avó: meus netos são ótimos, o problema é quando se misturam. E foi misturando gente, e extraindo delas seu pior, que Polanski acertou em cheio nesse Deus da Carnificina, tornando sua investigação sobre o comportamento humano uma obra forte, ácida e engraçada. A briga é de criança, mas os problemas são de adulto.

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