sábado, 23 de junho de 2012

No lugar errado


Um restaurante.
Ela chega. Fala com a jovem de rosto bonito que recebia a todos que chegavam. Pensa que talvez ela devesse estudar e procurar um estágio ou qualquer outra coisa em que ela não fosse apenas um pedaço de carne pendurado e exibido para atrair a atenção de quem chegava. Pensa que não seria diferente em outra profissão ou mesmo em outro estágio. Pensa que não tem nada a ver com a vida da garota e que tem outros problemas pra resolver.
Muitos.
Os seus.
Será que tô no lugar errado?, pensa.
Quando vê ele no bar. Parece bebendo alguma coisa. Aponta pra ele e vai em sua direção.
Chega. Beijam. Falam. Trocam impressões sobre o dia, o tempo e o trânsito. O garçom chega. Entrega os cardápios. Coloca água pra ela. Ele diz que não. Entrega a carta de vinhos. Vai. Eles ainda nas impressões. Volta depois. Anota os pedidos. Vai de novo. Mais impressões vazias de sentido. Traz o vinho. Abre. Vai. Silêncios preenchidos de desconforto. Volta com os pedidos. Serve. O silêncio. Cotovelos fora da mesa. As cartas também. Olho no relógio. Serve o vinho de novo. Garfos, facas, barulhos. Discretos, mas barulhos. Dentes, louça, metal, huns. Tudo carregado de sentido. Tudo carregado.
Maquinal.
Tudo feito maquinalmente.
Maquinalmente feito, silenciado, comido e falado.
Acho que a gente tá no lugar errado, ela diz.
Ele permanece em silêncio.
Ela tem fome. Mas não toca na comida.
Ele olha um pouco. Se quiser a gente pode trocar de mesa, responde.
Ela faz que não com a cabeça. Olha pra comida. Pro prato. É frango. E frango é nada. Tem gosto de nada. De sempre. De qualquer coisa. Tudo parece com frango. Cobra, rã, coelho. Parece com frango, alguém diz. Ela pensa nisso. Quase sorri. Mas não. Pensa no frango. Num frango. Numa galinha. Numa galinha dentro de um círculo de giz.
Ele ainda tem impressões. Ela, tédio.
Estão no lugar errado. Ela sabe. Tenta dizer.
As impressões dele não acabam nunca. Dia, tempo, trânsito. Restaurante, comida, vinho. Merlot, Pinot Noir, Cabernet Sauvignon. Toalhas, brancas, sujas. Iluminação. Garçons, terno, trabalho. Dia. O trabalho. O dia inteiro. A noite inteira.
Ela não ouve. Mais.
A gente está no lugar errado, sentencia.
Ele para. Entende.
Ela olha ele ir embora.
É quando começa a comer. Finalmente.

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