quinta-feira, 28 de junho de 2012

De longe


Quem olhasse de longe não entenderia.
Ela estava agachada sobre a mesa do restaurante. Segurava uma faca com a mão esquerda e encostava na ponta o nariz. Na direita estava um garfo com as pontas tocando seu queixo.
Definitivamente, quem olhasse de longe não entenderia.
No entanto, cinco minutos antes, o ambiente era de paz e tranquilidade. Havia um casal sentado na mesa ao centro. Conversavam. Tudo aparentemente normal.
Estava ali havia meia hora. Sentado. Esperando. Movia lentamente a faca na mesa. Vez em quando, passava pela borda do prato. Mas isso não significava absolutamente nada. Ou não deveria.
Quando ela chegou.
Atrasada, ele disse.
Ela não respondeu. Beijou e começou a falar. Perguntou sobre o restaurante. Ele respondeu. Mas ela não prestou atenção. Tinha outras coisas pra falar. Mais importantes, ele imaginou.
Desistiu de ouvir. Pensou no quanto aquele atraso era sintomático. Pensou na vida. Pensou que pensar na vida era vago, coisa pra dizer quando não se está pensando em nada ou não tem nada a dizer ou pra evitar outras perguntas a respeito do que se está pensando. Pensou se era possível a vida se atrasar.
Quando se deu conta, ela ainda falava.
Geleia de damasco, o que acha?, perguntou.
Não sabia o que responder. Se aquilo fazia de algum assunto ou se tinha a ver com o jantar. Sem saída, fez o que qualquer um faria: concordou com a cabeça. Ela sorriu. E continuou falando.
Ele segurou a faca. Não, não ia matar ninguém. Ainda que a ideia pudesse ser reaproveitada no momento oportuno. Riu consigo, rosto sem expressão. Com ela, desenhava nuvens imaginárias na toalha. Elas: faca e ideia. Vez em quando, tocava com ela na borda do prato. A faca. Foi quando começou a olhar com atenção para o casal.
Pra isso, é fundamental usar aqueles cristais, ela disse.
Cristais? Copos ou hippies?, ele se perguntou. Não sabia como, mas precisava responder. Responder rápido. Não gaguejou. Mas vacilava.
Ela sorriu.
Me acha boba né?
Não, que isso.
Achava. Claro que achava. Que papo era aquele de cristais? E geleia? Pensou num filme da adolescência. E riu de novo. Pra dentro. De novo. Ou consigo, como acharia bonito. Achava bonito falar consigo. E nunca tinha a oportunidade. Estava, afinal, rindo consigo.
Ela riu. Não dele. Ou com ele. Era um riso débil. Meio frouxo. Ele nem percebeu.
Ela continuou a falar.
Mas ele não ouviu. Estava olhando pro casal. Eles estavam numa mesa ao centro. A luz incidia sobre eles de uma maneira curiosa. Não sabia explicar. O casal se tocava carinhosamente. Eram jovens. Pareciam estar juntos há pouco. Ele imaginou, sem nenhum fundamento real. Só especulação. Pensou que tinham cara de estudantes. De humanas, provavelmente.
E ela falava.
Quem olhasse de longe, não entenderia, pensou. Tantas pessoas ali. Tão parecidas. E tão diferentes.
Ele não ouvia.
Mais nada.
Olhava pro casal. Tentava ouvir o que eles falavam. Mas não falavam. Nada. Não, não deviam ser de humanas. Talvez por isso se entendessem.
O telefone dela tocou. Era tosco. O toque.
Ela atendeu.
Ele continuou no casal. Agradeceu silenciosamente pela ligação. Ela encontrara outra pessoa pra conversar. Ou pra falar. E falava.
Tentava entender o casal. E fazia anotações invisíveis na toalha com a ponta da faca. Quando o telefone do rapaz na outra mesa tocou. O rosto da menina se fechou.
Instantaneamente.
A menina se levantou, subiu na mesa e se agachou. Com a mão esquerda, segurou a faca e tocou a ponta do nariz. Com a direita, encostou o garfo no queixo.
O menino não conseguiu atender. Ficou olhando. Estático.
Abandonou o casal e desviou o olhar de volta pra sua mesa.
Ela falava ao telefone. Ainda. Sobre geleias e cristais. Ele sentiu vontade de subir na mesa. Quem sabe se agachar e, garfo e faca a mão, compor alguma cena surreal.
Quem olhasse de longe não entenderia. Nem de perto.

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