quinta-feira, 14 de junho de 2012

Bituca




ELA: O que você está fazendo?

Ele pensou um pouco do outro lado da linha. Estava tenso.

ELE: Molhando bitucas de cigarro no café e comendo.

Os lábios dela esboçaram um sorriso.
Estava no apartamento ao lado.

ELA: Você, sempre querendo me chocar.

Ele queria mesmo.

ELE: Sou assim. Meu estilo de vida choca mesmo.
ELA: É.

Ele falava a verdade. Em parte, pelo menos.

ELA: Vamos fazer alguma coisa?

Sabia da resposta. Mas tentou.

ELE: Hoje não vai dar.
ELA: Tem certeza?

Ela tinha. Mas não impedia de tentar.
Ele não aceitava. Nunca.

ELE: Não vai dar. Tô ocupado.
ELA: Tá sempre ocupado pra mim.

Ele esboça uma resposta que não sai.

ELA: São tantas bitucas de cigarro pra comer?

Sem querer, ela havia resolvido o problema dele: sua pergunta preencheu a ausência de resposta.
E ele pôde rir.

ELA: Brincadeira.

Ela fingiu que riu. Só fingiu. Não era brincadeira.

ELA: Deixa pra próxima.

Mandou um beijo e desligou. Foi comer seu atum, ver seus e-mails e dormir com seu tédio de estimação.
Ele desligou também. Estava aliviado. E pronto para terminar o que havia começado.
Durante toda a tarde, fizera fotos sensuais vestido de mulher. Naquele momento, dava os últimos retoques antes de enviá-las a blogueiros desavisados.
Pediria para ser identificado como Bituca.

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Livremente inspirado em:




O Não Salvo sempre proporcionando a exposição do que há de mais bizarro no ser humano. E não é a primeira vez.

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