quinta-feira, 19 de abril de 2012

Xingu

Texto publicado originalmente no Mundo Mundano (11/4).



É difícil imaginar alguém nascido nos anos 1980 que não goste de Cao Hamburger. Crescer na década seguinte assistindo ao Castelo Rá-Tim-Bum significou a conservação da sanidade de toda uma geração. O diretor e o pessoal da TV Cultura impediram o surgimento de uma massa ainda maior de crianças babando e cantando ilarilariê por aí.
Filho do ano de 1985 e fã do Castelo Rá-Tim-Bum, fui ao cinema assistir a Xingu, novo filme de Cao Hamburger. Há alguns anos, já tinha ido assistir a O ano em que meus pais saíram de férias, primeiro dessa nova fase: agora ele faz filmes para adultos, muitos dos quais foram seus fãs na infância.
Xingu conta a história dos irmãos Villas-Bôas e da fundação do Parque Nacional do Xingu. No início, ainda nos anos 1940, assistimos a caminhada rumo ao oeste brasileiro, com a Expedição Roncador-Xingu. O grupo de vanguarda, liderado pelos irmãos Orlando (Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat) Villas-Bôas, segue abrindo caminho em áreas não ocupadas pelo Estado até então. Constroem-se postos de abastecimento, campos de pouso, bases militares: consolida-se a ideia de integração nacional. Ao mesmo tempo, é uma ação sobre terras ocupadas tradicionalmente pelos indígenas.
A relação Estado-indígena-sociedade sempre foi bastante delicada. E, de certa forma, permanece assim até hoje. Desde massacres de grupos inteiros empreendidos ao longo dos últimos 500 anos, se não pelo próprio aparelho estatal, contando com a inoperância dele, até uma simples conversa num almoço de domingo, quando o seu avô fala que “índio é preguiçoso, quer mais é vida boa”.
O ideal de desenvolvimento, desde a colonização, levou a ocupação de extensas áreas habitadas por indígenas. Esse processo não se deu de maneira pacífica nem com respeito à alteridade. No período retratado em Xingu, entre os anos 1940 e 1970, existiam ainda outras questões. No primeiro momento, o modelo varguista e seu projeto de nação, que incluía o índio como parte importante da formação do povo brasileiro, mas, ao mesmo tempo, desejava expandir a fronteira produtiva e garantir a presença do Estado por todo o território, avançando a oeste. Já nos anos 1960/70, havia a ideia do Brasil Grande da ditadura civil-militar instalada em 1964: era preciso espalhar o progresso. Ainda que a noção de progresso fosse (e seja) algo bastante discutível.
Dentro dessa perspectiva, a conquista de uma área, como o Parque Nacional do Xingu, em 1961, foi uma grande vitória dos Villas-Bôas e dos índios (ativos no processo), mas também da nação brasileira. A luta dos deles foi fundamental e seu trabalho, reconhecido pela comunidade internacional, tem uma grande oportunidade de se popularizar entre os mais jovens, a partir do cinema.
Na tela, há um filme cujo grande mérito é a dedicação. Não deve ser fácil filmar nas condições em que tudo foi feito. E toda dedicação resulta em uma história muito bem contada: é um épico feito em grande estilo.
O filme é belíssimo visualmente. A direção de Cao Hamburger deixa a sua marca, sobretudo nas sequências de entradas em regiões desconhecidas. Com a câmera fixa no olhar dos viajantes e não na paisagem, a expectativa de quem vê é ainda maior, diante das reações dos personagens na tela. Se alguém tinha dúvidas a respeito de seu talento ou de sua capacidade de fazer a transição linguagem-público, imagino que não as tenha mais depois de assistir a Xingu.
O elenco tem uma atuação afinada, com destaque para João Miguel (Cláudio Villas-Bôas), compondo o personagem com a dose exata do idealismo e da consciência cruel de seu papel naquele processo. Em certo momento do filme, Cláudio diz que eles são “o antídoto e o veneno”. Estava coberto de razão.
Entretanto, algumas opções parecem questionáveis. Como a relativa insignificância atribuída ao Marechal Rondon e a Darcy Ribeiro. Não é possível falar em índio, nas relações do homem e do Estado com o índio, sem falar deles.
Além disso, em alguns momentos, o maniqueísmo ganha força e os Villas-Bôas são apresentados como o bem e os fazendeiros e militares como o mal. Não custa lembrar que a posição dos irmãos durante a ditadura civil-militar brasileira sempre foi bastante ambígua, numa aparente tentativa de serem apolíticos. Pode se entender tal atitude como uma estratégia, uma forma de luta. O que, no entanto, não foi suficiente para fazer a esquerda da época, decepcionada, entender. Em Xingu, essa posição não aparece. Quando se tenta insinuar, acaba sendo muito mais uma posição do Orlando, criticada por Claudio, e não a prática constante.
A despeito disso, o filme é grande. No bom sentido. Merece ser visto: é cinema brasileiro de qualidade. E sua grandeza está em não ser um panfleto eco-chato, apesar de ser um libelo pela preservação ambiental e defesa dos povos indígenas. Não se trata de um retrato idealizado do índio, apesar de dar voz ao oprimido. Também não é sobre o brasileiro-aventureiro-gente-boa, ainda que exalte a figura os irmãos Villas-Bôas e omita algumas outras opiniões, não tão positivas, sobre a atuação deles.
Assim, Xingu é uma obra que ultrapassa a sala de exibição. É a defesa do valor das diferenças e de uma ideia de desenvolvimento mais preocupada com as pessoas. Merece ser discutido, ao levantar questões sobre os limites do progresso e seus efeitos e sobre as possibilidades de preservação da região e das raízes culturais brasileiras, e deixar uma pergunta latente: qual a dose exata que diferencia o veneno do antídoto? Mas se por acaso nada disso interessa a você, veja também, porque o filme é excelente como diversão. E, no mínimo, você vai poder lembrar do cara que salvou você das apresentadoras infantis e descobrir que ele faz cinema de gente grande.

Para ver a publicação original no Mundo Mundano:

Nenhum comentário:

Postar um comentário