terça-feira, 24 de abril de 2012

Rua Odilon Amaral, 261

Era um amontoado de gente na rua Odilon Amaral, em frente ao 261. Mas antes era só ele.

Ou quase.

Ela era jovem. Viçosa. Atraía os olhares. Inclusive o dele. Insistiu. Todos riram. Já não era jovem. Nem viçoso. Mas ela se encantou.

Ou quase.

Casaram. Uma festa. Muita comida. Bebida. Todos convidados. Toda gente da rua. Quiçá do bairro. Riram. Mas ele estava encantado. Não viu.

Ou quase.

Agora eram dois. Passou o mês. E o outro. E outros. E o viço.

Ou quase.

Porque depois ressurgiu. Com um sorriso no canto da boca. Com uma ida ao mercado mais demorada. Ou um dia em que o jantar atrasou. Ainda eram os dois.

Ou quase.

E veio o que ele temia. E não controlou. E bateu. E bateu forte. E outra vez. E outras. Só de vez em quando.

Ou quase.

E ela fazia a comida. Todos os dias. Até quando apanhava. Principalmente, quando. E ele cada vez mais magro. Cada vez mais fraco. E ela fazendo a comida. Só isso.

Ou quase.

E um dia o 261 da rua Odilon Amaral amanheceu cheio de gente. De dentro, saiu o saco preto. A viúva na porta. Foi o coração, alguém disse.

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