terça-feira, 10 de abril de 2012

Muito perto



Pode falar?, ela disse, voz meio abafada, como que segurando um choro.

Ele não ouviu a resposta do outro lado da linha, mas a situação já foi suficiente pra que abandonasse um dos fones de ouvido.

Estavam num ônibus. Cheio. Fim de tarde. Todos muito perto uns dos outros. Fatalmente a conversa seria ouvida por todos. Só queria estar atento.

O começo não pareceu muito promissor.

Tudo bem?, eu tô bem, tem feito calor, né?, encontrei sua irmã noutro dia, e toda a tradicional conversa sem objetivo que antecede uma informação devastadora.

Apesar de habituado a ouvir conversas alheias na rua, não atentou para isso. Imaginou um erro de análise ao ver uma história interessante no que era só mais um fruto da política de concessão de bônus das operadoras de telefonia celular. Já estava pronto para recolocar o fone no ouvido quando parou.

Hoje fomos à igreja conversar sobre o casamento, ela disse, deixando algo suspenso no ar.


Provavelmente, houve um comentário do outro lado. Mas ele se interessou mais pela forma do discurso. Não havia muita empolgação nela. Nenhuma. Sentiu que ali havia uma história.

Enquanto fingia procurar alguma coisa na agenda do celular, pôde ouvir que os noivos em questão eram virgens. Que estavam juntos, entre idas e vindas, havia quase dois anos. E que ele decidira casar. Estavam noivos. Ela já sonhara muito com aquilo, mas havia desistido.

A conversa começou novamente a entedia-lo.

Olhou discretamente pra ela. Era quase bonita. Com olhos tristes e claros. Poderia dizer que não sabia se eram verdes ou azuis. Mas aí seria uma música do Elton John. O que não era o caso. Eram claros. E muito tristes.

Cogitou, outra vez, recolocar o fone. Mas o discurso dela impediu. Mais uma vez.

Ele me contou umas coisas que sei lá..., ela disse.

Estava visivelmente constrangida.

Ah, umas coisas que acho que ele não devia ter me dito, continuou.

Parecia procurar as palavras, talvez pensando que muitos ali poderiam ouvir o que dizia.

Eu fiquei muito mexida, decepcionada, sei lá, com um certo nojo, definiu.

Ele se ajeitou no banco. Mexida, decepcionada, com nojo. O que ele teria feito?, ou, ainda, o que ele contou a ela que fez?, pensava.

Absorto, organizou as opções.

Poderia ser um colecionador de bonecas. Ou gostar de sexo com animais. Ou com animais em decomposição. Ou com bonecos de animais em decomposição. Ou ter uma micose de estimação. Ou apenas criar gatos. As opções aumentavam a cada segundo. Todas muito díspares.

Estava ansioso. Era quase o local de descer do ônibus, e ela não dizia o que o noivo havia feito. A conversa retomou o padrão morno e ele se resignou.

Ia descer. Sem um desfecho.

Enquanto levantava e se preparava pra sair, percebeu que ela parecia ouvir algum conselho pelo telefone. Quando apertou a campainha, ela respirou fundo e disse, com a mesma voz de quase choro do início: a questão é que eu acho que não posso mais esperar por alguém melhor.

Ela pôs a mão no rosto. Ele desceu.


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