sábado, 18 de fevereiro de 2012

A bailarina


Amanheceu o sábado.
Ela levantou cedo. Não queria perder um segundo: o banho foi rápido, o café, ainda de toalha, igualmente.
Foi ao armário. Lá estava a fantasia.
A bailarina.
Dançou dos três aos 12. Parou: o quadril cresceu mais do que a professora de balé poderia aceitar. A fantasia era uma lembrança.
E uma frustração, poderia ter dito.
Tirou-a do armário e, depois, do cabide. Estendeu sobre a cama e observou por alguns segundos. Os segundos viraram minutos de contemplação. Era muito bonita a roupa da bailarina. Lembrou da infância e uma lágrima escorreu discretamente.
Tirou a toalha e começou a colocar a fantasia. Mas a roupa da bailarina parecia ter alguma coisa errada. Não entrava. Não cabia na roupa da bailarina. Tentou mais uma vez.
As lembranças vinham sem parar. A professora do balé. As outras bailarinas. Tutu, sapatilha, cabelo bem preso. Ia sempre assistir. Gostava de balé, era apaixonada. Mas odiava um pouco as bailarinas. Pensava que a professora talvez tivesse razão, definitivamente, não tinha jeito para bailarina.
Foi então que rasgou a roupa da bailarina. 
Inteira. 
Desfiou algumas partes, costurou outras. 
Em pouco mais de uma hora, tinha outra fantasia.
Odalisca.
A odalisca é uma bailarina gostosa, pensou.

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