quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O cara da janela

Ele pegava a barca todos os dias. Servia para fugir do trânsito, dizia.

A verdade é que gostava de olhar as pessoas. A barca proporcionava uma grande quantidade de tipos. Como aquele cara encostado na janela.

Odiava ônibus. Pessoas apertadas tendem a esconder seus rostos, pensava. Gostava daquelas viagens. E de todos os rostos delas, das frustrações, dos casais, das tensões.

O cara agia normalmente até alguns minutos antes. De repente, começou a gritar. Quando o funcionário da barca se aproximou, colocou metade do corpo pra fora da janela e disse que ia pular.

Havia poucos passageiros. E quase todos permaneceram como estavam. Jornais e celulares. Mas ele queria entender. Por que se matar?, pensou.

O cara na janela, estava, agora, rodeado por cinco funcionários. Um deles o segurava pelo pulso. Eu só quero nadar, ele disse. Todos em volta tentando explicar que não era possível. Ao menos, não naquela viagem.

E ele olhando tudo aquilo. Pensando nos porquês. Pensou no emprego, mas os funcionários perguntaram e ele disse que trabalhava. Poderia estar mentindo, é verdade. Pensou que poderia ter uma doença terminal. Ou um parente terminal. Ou morto. Talvez uma dívida. Nada parecia suficiente.

A barca parecia não chegar nunca ao outro lado. O cara na janela, cercado, dizendo que só queria nadar um pouco. Ninguém parecia entendê-lo.

Pensou, então, que só poderia haver um motivo. A mulher. Deve ter sido abandonado, foi a solução que veio a mente. E pensou em si mesmo.

Enquanto os funcionários cercavam o cara da janela, ele levantou e atravessou a barca. Encontrou outra janela.

Estava longe. Ouvia, ao fundo, a discussão da outra janela. Havia uma bem a sua frente. Lentamente, deixou a mochila sobre o assento e passou o corpo pelo espaço suspenso, ficando apenas com as pernas pra dentro.

Olhou uma última vez e deixou o corpo cair. Só uma mulher viu. E deu um grito.

Ninguém pôde evitar.



Um comentário:

  1. "grande quantidade de tipos"
    "permaneceram como estavam. Jornais e celulares." (minha favorita do texto).

    "Talvez uma dívida."
    (ou talvez uma dúvida).

    ResponderExcluir