terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Diante da janela


Estava sentado diante da janela.

Às vezes, é só o tempo, pensou, não há nada, é só o tempo, é só a ausência, é só o cansaço. Estava cansado.

Da cadeira, podia ver. A vida existia. Lá embaixo. Apenas. A vida inteira existia apenas lá embaixo. Ali, só a cadeira, ele e a televisão sem som.

Através da janela, podia ver pessoas e carros. Os outros prédios. Altos e sujos. Até outras janelas. Com televisões ligadas. E, como não podia ouvir o som delas, imaginava estarem sem som também. Pensando nisso, ria. Um riso débil.

Vez em quando, alguém entrava no quarto. Falava alguma coisa sobre o tempo ou a tv. Ele respondia. Qualquer resposta genérica ou um leve balançar da cabeça. A verdade é que independia da pergunta ou do comentário. Sua reação era automática: ao ouvir a porta, o corpo já se preparava.

Não queria ouvir. Ninguém. Não queria conversa. Nenhuma. Estava interessado no que podia ver pela janela. As palavras dentro do quarto só atrapalhavam. Por isso, a televisão sem som. E a cadeira virada para a janela.

Os que entravam, saíam e comentavam não ficavam muito tempo. Ele gostava. Do pouco tempo que permaneciam. Faltava paciência. Não queria responder perguntas. De nenhum tipo.

Ele sorria da cadeira. Eles iam mais rápido assim, pensava. E, depois de sorrir, estava sozinho. Olhos fixos na janela.

Estava sentado diante da janela. Na cadeira.


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