terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Cadeiras de praia


Abriu a cadeira de praia.
Era verão e o final do dia era acompanhado pelo abrir de cadeiras de praia por toda a calçada da rua.
Era o subúrbio.

AVÓ: Senta aqui com a gente.

Fora à Abolição visitar a avó. Havia tempo que não fazia isso. Já tinha esquecido como eram as coisas.
Sentados lado a lado, os moradores iam formando pequenos grupos. Conversas irremediavelmente entrecortadas por expressões relacionadas à alta temperatura.

UMA SENHORINHA: Quente, né, minha filha?

Ela não conseguiu responder. Enquanto movia a cabeça e articulava as palavras para responder, a senhorinha, bastante idosa, continuou falando.

UMA SENHORINHA: Você não liga que eu te chame de minha filha, né?

Tentou dizer que não. Mas não foi rápida o suficiente.

UMA SENHORINHA: Que bom! Porque a sua avó é como uma irmã pra mim.

Restou a ela sorrir.
A avó seguia na conversa com o restante do grupo. Ela ali, ao lado da senhorinha, que a conhecia, mas de quem ela nem imaginava o nome.

UMA SENHORINHA: Você lembra do meu neto? Eduardo, lembra? Duduzinho?

Tentou dizer que não. Mas não era necessário.
Vez ou outra, a conversa era entre dois lados da rua, o que tornava tudo ainda mais interessante.
A senhorinha gritou pra outra mulher do outro lado da rua.

UMA SENHORINHA: Ô Mônica! Lembra quando o Duduzinho foi pajem no casamento da Rita?

A tal Mônica respondeu que sim do outro lado da rua. Fez um comentário sobre como o tempo passa rápido e a senhorinha balançou a cabeça concordando.

UMA SENHORINHA: Rita é minha afilhada. Rita Ferreira, filha de Seu Ciro Fonseca, da loja de doces que tinha ali na frente. O nome de solteira dela é Fonseca, o Ferreira é do marido. O marido dela é Paulo Ferreira. Ele é advogado. Ciro é meu irmão mais novo. O nome dele é Ciro, mas a gente chama de Cicica. Você não conhece, não?
ELA: Não.

Conseguiu responder. Quase não acreditou.
Depois, pensou que só havia conseguido porque a senhorinha tinha parado um pouco pra respirar.
Fôlego retomado, emendou.

UMA SENHORINHA: Sua avó conhece.

Dirigiu-se a avó.

UMA SENHORINHA: Lembra do Ciro, comadre?
AVÓ: Cicica?
UMA SENHORINHA: É.
AVÓ: Claro!

Voltou-se para ela.

UMA SENHORINHA: Não te disse. Pois é, eu estudei com seu avô no Grupo Escolar em 1944. Benito Ferreira, pai do marido da minha afilhada, que além de afilhada é sobrinha também, Benito Ferreira estudava com a gente também. O apelido dele era Benitinho. Tá prestando bem atenção, minha filha?

Balançou a cabeça. Sabia que não adiantaria tentar falar.

UMA SENHORINHA: O apelido dele era Benitinho porque o pai dele se chamava Benito também. Benito-pai fez fortuna vendendo frango. Ele e a mulher, Eulália. Eram muito trabalhadores. Ele morreu tem uns dois meses. Ela, já faz um tempão. Benitinho namorou a sua mãe antes do seu pai. Ele só casou com a Marinês porque a sua mãe largou ele pra casar com seu pai. Você podia ser filha do Benitinho, né?, olha só que coisa engraçada, gente...

A senhorinha parou para respirar de novo.
Ela pode respirar também. Desenterrou o corpo da cadeira e relaxou um pouco.
Pouco.

UMA SENHORINHA: Você sabia que o Duduzinho é um rapaz muito sensível? É, escreve até poesia! Já te contei da poesia que ele fez pra mim quando tava na 3a série?

Claro que não tinha contado. Estavam ali conversando e ela só falava da maldita família que vendia frangos. Ou doces. Ou sabe-se lá o que.
Respirou.
Não, não estava com raiva. Queria apenas participar da conversa.
Da respiração, nasceu um sorriso.

UMA SENHORINHA: Pois é uma coisa linda. Tenho guardada até hoje. Você precisa ver. Ver e ler. Quando você for lá em casa, vou te mostrar. É uma coisa linda. Eu chorei de tanta emoção quando li pela primeira vez. Pra falar a verdade, choro até hoje quando leio. Fala com sua avó pra levar você lá em casa. O Duduzinho tá sempre lá. O safado vai sempre lá pra comer meu bolo de coco. Vocês podem conversar, tem tudo a mesma idade. É a juventude!

Chamou outra mulher do outro lado da rua. E repetiu.

UMA SENHORINHA: É a juventude! São jovens, né não?!

Foi respondida com uma enxurrada de “ééésss” por todos os lados. Assim mesmo, estendidos.

UMA SENHORINHA: Você sabe fazer bolo de coco? Ah, porque o Dudu adora bolo de coco. É o doce predileto dele. Quando ele era pequeno, eu fazia todo dia de tarde, pra ele poder comer quando saísse da escola. Ia pra lá depois da aula e ficava naquele bendito violão, tocava uns negócios bonitos. Ele adora violão. Quando ele tinha nove anos, o Augusto, meu marido, deu um pra ele. Eu lá, fazendo as coisas da casa, porque você sabe que não tem coisa mais linda do que uma mulher que toma conta do seu lar, né?, eu lá fazendo as coisas de casa e ele no violão, fazendo blom, blom, blom.
ELA: Que legal!

Conseguiu participar da conversa. Até ficou emocionada.

UMA SENHORINHA: E você sabe ou não sabe?
ELA: O quê?
UMA SENHORINHA: O bolo de coco. Você sabe fazer bolo de coco? Porque uma mulher que não sabe cuidar do lar... Meu Deus do céu! Uma mulher que não cuida do seu lar, não é uma mulher completa.

Era um campo minado. Não sabia esquentar água. Concordou mentindo.

UMA SENHORINHA: E você fuma?

Um maço por dia. Mentiu de novo, sacudindo a cabeça.

UMA SENHORINHA: Não, porque mulher que fuma... Se sabe, né? Se uma mulher fuma, minha filha, é porque já caiu na vida. E cigarro é a chupeta de satanás.

Precisava fugir dali. Olhou para a avó. Estava concentrada em outra conversa. Olhou para a senhorinha que parecia querer começar a falar de novo.

ELA: Tia, preciso ir entrar agora.
UMA SENHORINHA: Mas por que, minha filha?

Precisava de uma resposta rápida.

ELA: Tenho que ligar pra minha mãe. Sabe como é, ela fica preocupada se eu não ligo.

A senhorinha abriu um sorriso largo.
Ela deu um beijo e saiu de fininho, conseguindo, finalmente, fugir das cadeiras de praia abertas na calçada. Fazia muito calor.
Era o subúrbio.


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