segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

breve intervalo nos dramas cotidianos: "Muito além de um tapete voador"


Aproveitando a premiação do Oscar de ontem, reproduzo aqui "Muito além de um tapete voador", sobre o filme "A separação", vencedor na categoria melhor filme estrangeiro.
O texto foi publicado pelo Mundo Mundano em 3 de fevereiro.



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Muito além de um tapete voador

Tenho certos preconceitos cinematográficos. Acredito que todos têm. Alguns são bons em disfarçar, outros deixam claro quais são. Pertenço ao segundo grupo. Porém, meu desgosto por certos filmes não me impede de vê-los. Em cinema, poucas coisas me deixam tão felizes quanto descobrir que estava errado sobre determinado artista, seja cineasta, roteirista ou ator.

Quase sempre, odeio filmes asiáticos, por exemplo. Não tenho a menor paciência para filmes japoneses e chineses, principalmente. Até gostava de ver uns samurais quando era criança, mas passou quando cresci. Porém, isso não me impede de assistir a cada novo filme do Zhang Yimou na tentativa de descobrir que sempre estive errado.
Outro alvo do meu desgosto sempre foram os filmes iranianos. Ao longo do tempo passado na faculdade e nas mostras de cinema, sempre tive a impressão de que todo filme iraniano tem um tapete voador ou uma criança que perdeu um sapato. Que fique claro: acho a cultura persa uma das coisas mais interessantes que existem, o farsi um idioma sonoramente agradável e o povo iraniano de uma beleza exótica. Meu problema sempre foi com a cinematografia iraniana. Acontece que tudo que pensava sobre o cinema iraniano foi por água abaixo assistindo ao excelente A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, no original), de Ashgar Farhadi.
A cartilha dos comentários sobre o Irã diz que deve se demonizar o país e tudo que vem de lá, dizer que as mulheres não tem liberdade, que as pessoas são oprimidas e miseráveis. Pra se ter uma ideia, recentemente, um professor brasileiro de Harvard defendeu publicamente o assassinato de cientistas iranianos como prevenção. Não vou seguir a cartilha. O Irã tem grandes problemas, a começar por um sujeito chamado Ahmadinejad. Mas dizer que só há problemas lá ou querer resolver os problemas do país não me parece uma boa coisa a fazer: sempre desconfio dos cruzados da liberdade.
Em seu filme, Farhadi fala de um Irã diferente. Na tela, não há tapetes voadores nem objetos perdidos. Há sim, a implosão das relações de afeto, dilemas morais e as diferentes possibilidades de construção de uma verdade. Tudo exposto a partir de uma família da classe média iraniana. E como toda família de classe média do mundo, cheia de problemas. Essa parece ser o grande talento da direção: uma história que poderia ser estranha ao espectador do ocidente, torna-se universal na medida em que fala sobre sentimentos, dúvidas, angústias universais.
Desde o principio, toda a narrativa é construída de maneira irretocável. É uma pancada atrás da outra no espectador. Em uma espécie de prólogo, o casal Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moaadi) fala olhando nos olhos da platéia. Nesse momento, já se constrói a ligação que durará toda a sessão, ao tornar todos testemunhas de um desmoronamento: trata-se de uma audiência de divorcio, em que se expõem os dilemas do casal e da família.
Divorciado, Nadir precisa contratar alguém para cuidar de seu pai com Alzheimer. A partir disso, com a contratação de Razieh (Sareh Bayat), a empregada grávida que ajudará a cuidar de seu pai, é que a história se desenrola.
É importante ressaltar que o resultado final deve muito às interpretações. O elenco confere a densidade exata ao filme, com destaque para Sarina Farhadi, que interpreta Termeh. A adolescente filha do casal é o elemento catalisador dos dramas do pai, da mãe e do avô, além dos seus próprios. Ela é, de certa forma, a porta de entrada do espectador para a história. É o olhar da platéia dentro do filme.
Não há duvidas de que A Separação é uma história muito bem contada. Não há uma câmera nervosa, tremendo o tempo atrás dos personagens. Nem é preciso: a delicadeza das imagens, a cada momento mais tristes e angustiantes, mantém o espectador em confronto com as emoções, as dos personagens e as suas próprias.
Sem tapetes voadores e sapatos perdidos, o cinema iraniano me surpreendeu e ganhou um defensor ardoroso, ainda que recém-convertido. A história da família de classe média iraniana poderia ser a história de uma família de classe média do Rio, de São Paulo, de um subúrbio de Nova Iorque ou de Berlim. Essa possibilidade ampla não diminui o valor da obra. É exatamente o oposto. Ao construir uma narrativa sobre a natureza humana, Farhadi faz um brilhante filme e mostra que entre Teerã e a Tijuca há muito mais em comum do que poderia supor qualquer filosofia barata.

O texto está disponível em:


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