terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Três crianças

Eram três crianças no elevador. Sete ou oito anos, no máximo.
Antes, no playground, algumas crianças brincavam. Elas três e outras. Não era possível saber quantas: eram muitas e corriam e gritavam, o que tiraria a concentração de qualquer observador.
Naquela correria toda, o menino chamou a menina. Sua amiga. A melhor.
Queria te pedir uma coisa, disse baixinho, com a boca meio fechada, olhando pra baixo.
A menina tremeu: era apaixonada por ele. Ele pediria um beijo? A boca secou. Suava um pouco. Tentou disfarçar o nervosismo, olhou pros lados.
Mas você tem que prometer que vai guardar segredo, ele seguiu. Não notou nada de diferente nela. Não percebeu a boca seca, a testa suada e nem os movimentos esquisitos da perna esquerda, que só poderiam ser fruto do nervosismo da situação ou de algum distúrbio neurológico.
Ai, tô curiosa!, ela falou olhando pra cima. Ainda suava, tinha a boca seca e a perna descontrolada.
Promete que jura?, ele tentou construir um compromisso altamente sigiloso.
Ela prometeu, fala o que é!, insistiu, ele tenso, ela quase fechando os olhos e abrindo levemente a boca esperando pelo beijo, esperava pelo beijo, esperava por ele, esperava por ele e seus sete ou oito anos bem vividos.
Mas quando a respiração dele não se aproximou, quando viu ele parado, paralisado, olhos no chão, boca meio fechada. O silêncio, grande, grande demais para seus sete ou oito anos. Foi num rompante, enfrentando aquele silêncio que o menino ergueu os olhos, abriu a boca e despejou tudo. Ela teve vontade de chorar.
Sabe ela?, disse e apontou pra uma menina de sete ou oito anos em pé sobre um banco de madeira que tinha um laço rosa na cabeça, gosto dela, mas não consigo falar, você fala pra ela que eu quero casar com ela?
Teve mais vontade de chorar. Ou cometer um homicídio. Ainda que, aos sete ou oito anos, o significado exato da palavra homicídio não estivesse muito claro pra ela.
A menina do laço rosa ia embora no dia seguinte. As férias tinham acabado e o tempo na casa da avó também. Era hora de partir e o menino de sete ou oito anos estava completamente apaixonado.
Sua pergunta tinha ficado sem resposta. Insistiu, como se não fosse nada, como se ela não estivesse ali, suada, com a boca seca, os lábios quase rachando, a perna descontrolada. Ela não conseguia responder.
Queria chorar. Achava que ia ser pedida em casamento, que ficaria junto com o menino para sempre, com um casal de filhos, uma casa na praia e um cocker spaniel feliz correndo no quintal de uma casa no subúrbio. Mas não chorou.
Falo.
Saiu rápido pra ele não perceber a lágrima brotando no olho. Foi em direção à menina de laço rosa e cochichou alguma coisa no ouvido dela. Nada sobre o menino.
E voltou.
Pronto.
Ela disse o que?
Nada. Ela não tinha dito mesmo.
Nada?, quase frustrado.
Nada!, repetiu já deixando o aperto naquele coração de sete ou anos escapar um pouco.
Mesmo?, insistiu, não acreditava.
Ela não disse nada, tá?
Ele estava frustrado. Achou que faria um pedido de casamento naquele dia, que ela não precisaria voltar pra casa, que eles ficariam juntos para sempre, com uma família grande, muitos filhos, uma casa na praia e um basset feliz correndo no quintal.
Só o que houve foi a continuação da brincadeira e a gritaria no playground. Até as seis e o toque do sino da igreja na esquina. Eram, então, três crianças de sete ou oito anos no elevador. Em silêncio.
Quarto andar.
Saiu a menina com seu coração partido. Olhou para o menino no elevador, seu amigo, e acenou antes de correr pra que ninguém visse seu choro.
Quinto, sexto e sétimo andares. O menino de cabeça baixa. A menina meio triste pelo fim das férias. Em silêncio.
Ela gostava dele. Mas não tinha coragem de contar. Achava que, naquele último dia de férias, ele ia pedir sua mão, que ela não precisaria voltar, que eles ficariam juntos para sempre. Teriam três filhos, um gato siamês, um sítio com piscina e churrasqueira e morariam num apartamento perto da praia.
Talvez fosse diferente se soubesse que ele gostava dela. Mas não sabia.
Oitavo andar.
Os dois saíram. A menina queria um beijo e um abraço de despedida. Ganhou dele um tchau rápido, numa tentativa de esconder o choro preso. Triste, abriu a porta da casa da avó e foi lavar as mãos para o jantar. Quase não mexeu na comida.
No apartamento da frente, o menino olhava pela janela pras nuvens escuras no céu. No quarto andar, a amiga dos dois chorava deitada nas almofadas de bichinhos de pelúcia.
Eram três crianças de sete ou oito anos. Sofrendo por amor.

2 comentários:

  1. "Eram, então, três crianças de nove ou dez anos no elevador." Gostei de como retomou o início.
    "Eram três crianças de nove ou dez anos. Sofrendo por amor." Gostei da rima estrutural com que terminou o texto.

    Isso me lembra Colasanti, que num conto seu escreveu: "Tem 10 anos. Cuidado com essa idade, porque o olhar dela tem mais". Parece que o coração das suas três personagens tem menos. Uns sete ou oito anos :) Beijos!

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    1. Gostei da intertextualidade. rs
      Você tem esse conto? Não conheço. Pode me mandar a referência?

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