sábado, 7 de janeiro de 2012

O encontro


Ela saiu do mar tossindo, meio engasgada. Ele sorriu ironicamente, mas ela não viu.


Era noite. Melhor, era madrugada. Duas, talvez, três.


Ela chegara às onze. Ele, havia poucos minutos. Naquele momento, estavam os dois sentados na areia da praia, separados por poucos metros.

Tá tudo bem?, perguntou.

A pergunta surgiu de um sorriso irônico.


Ela não disse nada. A resposta foi um olhar incandescente da figura molhada.


Em qualquer descrição comum, haveria um casal, numa praia paradisíaca, ela com um biquíni da moda, cabelo preso, pele brilhando; ele, cerveja na mão, um calção discreto, sol a pino.


Mas não era o caso. Era noite. A luz era da lua e de um poste na beira da estrada, distante. A praia era, de fato, paradisíaca. Mas não seria possível constatar isso àquela hora. E, acima de tudo, não havia roupas de banho nos personagens.


Em qualquer descrição comum, haveria múltiplas possibilidades para o desenrolar daquele encontro.


Um casal estaria na praia e ela, depois de uma onda mais forte, voltaria para a areia, ao encontro de seu parceiro e da pergunta pelo seu estado. Ou, ainda, ele vendo uma mulher saindo do mar, chegaria perto, tentando algum contato, alguma conversa, alguma abertura, representada pela resposta a sua pergunta.


Mas aquela não era uma cena comum. Era noite e era uma praia.


Havia uma mulher saindo do mar, meio cambaleante, toda vestida de branco, não, não era um fantasma, era uma mulher molhada, cabelo desgrenhado, tossindo e tremendo de frio.


Na areia, poucos metros a frente, um homem, de terno preto, gravata solta, colarinho aberto. E, diante da pergunta dele, ela só pode encará-lo. Depois, baixou os olhos, desviando o olhar, seguindo na sua luta para se movimentar com um mínimo de estabilidade naquele processo de retorno a areia.


Não estava preparado para aquilo.


Quando pensou em seu suicídio, a idéia era que seu corpo ficasse um tempo na beira do mar, apanhando suavemente das ondas, até que alguém encontrasse o corpo, se é que alguém encontraria, não fosse levado pelo mar até um lugar-não-sei-onde. Se encontrassem o corpo, viriam policiais e legistas e seu corpo seria levado dali dentro de um saco preto, numa maca talvez.


Mas em nenhuma de suas simulações mentais daquele evento, voltaria para a terra, zonza, meio bêbada, cheia de areia na boca e água no ouvido, tossindo engasgada, caminhando trôpega. Tampouco esperava dar de cara com aquele sujeito estranho de terno preto sentado na areia, com uma garrafa de vodka na mão, interrogando-a sobre suas condições.


Tá tudo bem?, insistiu.

Ele sabia que não. Mas sua surpresa foi a resposta, cortante, sim.

Ela respondeu, respirou fundo e, estranhamente, recuperou um certo respeito próprio momentâneo. Ia passando por ele, olhando pro nada, ignorando a atraente garrafa de vodka na mão do rapaz.

A água tá boa?

Ela não resistiu ao comentário disfarçado de pergunta. Sorriu. Com um pouco de raiva. Mas decidiu entrar na dança.

Como uma cama de cacos de vidro, forrada com um lençol de pregos e um esmeril como travesseiro, respondeu.


Ele encarou-a. Sorriu e ofereceu a vodka.

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