quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O dedo anelar

Gostava de cortar pequenas partes do corpo.
Começara cedo. Aos cinco, cortava mechas do cabelo na escola com a tesoura sem ponta do Mickey. Eu tenho, você não tem, dizia a cada corte para os coleguinhas de classe.
Cresceu e o hábito permaneceu. Era discreto no começo. Cabelo, barba, cutículas, cantos de unha. Andava com uma tesourinha na bolsa. Sempre que havia uma brecha, cortava.
Mas de uns tempos pra cá, a coisa ficou esquisita.
A tesourinha e a tesoura sem ponta do Mickey deram lugar a uma tesoura de costura. Dependendo da ocasião, levava uma de cortar frango. Os amigos começaram a pensar no dia em que o encontrariam com uma tesoura de jardineiro.
Sentava em uma sala de espera e começava seu ritual. As pessoas em volta ficavam ligeiramente incomodadas. Acostumou-se a cortar partes da pele no ônibus. Nada demais.
Mas as coisas estavam ficando esquisitas pra valer.
Cortes cada vez mais profundos. Cada vez mais sangue. Os amigos pensaram em comentar alguma coisa, mas acharam melhor não. Pensaram em falar com a esposa, mas não foi possível.
Ela havia partido. Havia um tempo.
Ele estava ficando cada vez mais esquisito. Havia um tempo.
Pensou que talvez pudesse estar passando por uma fase esquisita e decidiu ir a um psicólogo.
Chegou pouco antes da hora da consulta. Sentou na ante-sala. Olhou pras revistas. Nada o agradou. Abriu a mochila e lá estava a tesoura de cortar frango. Pensou que precisava amolar a tesoura. Estava cega. Abandonou o pensamento ao ouvir uma gargalhada. Vinha da televisão.
Num programa da tarde, entre matérias em velórios e o vendedor de câmeras digitais, uma mulher ensinava formas de se fazer uma bainha na calça. Cortava o tecido. E descartava o resto.
Foi quando ele pegou a tesoura na mochila. Subitamente, cortou o dedo anelar da mão esquerda. As pessoas na sala gritaram. Ele não. Ao cortar, deixou cair a aliança.
Olhou pro dedo no chão e pensou que talvez tivesse ido longe demais.
E pode respirar mais tranquilo.

2 comentários:

  1. Realmente estranho, mas o dedo anelar, com certeza foi uma maneira de romper de vez com a mulher que já havia ido rsss nada mais de dedo para aliança.

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