segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A fantasia

Ela não tolerava o abandono. E havia sido abandonada.

ELA: Boa tarde.
ATENDENTE: Em que posso ajudar?
ELA: Queria deixar pra fazer uns ajustes.

Ela entregou a atendente uma fantasia. Junto, um papel com as medidas para os ajustes.

ELA: Tá aqui.

A atendente observou, um pouco em choque. Era uma roupa de mulher maravilha num cabide. Olhou para o papel e viu os ajustes pedidos.

ELA: Muito cuidado que o tecido é delicado. E o meu chefe não quer de jeito nenhum que estrague. É um presente.

Ele havia partido há muito. Não queria mais nada.
Ela não era capaz de entender.

ELA: Tem que apertar a cintura. Dá pra fazer?
ATENDENTE: Dá... dá pra fazer...

A atendente gaguejou um pouco.
Ela sorriu.

ELA: Ótimo. Aqui tem um endereço de entrega.

Ela nunca havia digerido a separação.
Ele apenas fora embora. Relacionamentos acabam, as coisas sempre tem um fim. Gente faz coisa errada. Gente magoa gente. Era o que dizia.
Mas pra ela, não. Era necessária culpa. E vingança. 

ELA: E um cartão.

Ela abriu o cartão e pegou o celular. Fingiu ligar para alguém, mas não fez.

ELA: Oi, tudo bem?... Coloco o que no cartão?... Aham...

Enquanto fingia falar ao telefone, começou a escrever. A atendente pôde ler o escrito.
Para aquele que é a minha verdadeira mulher maravilha, a única pessoa capaz de fazer o avião invisível subir. Beijos, do seu.
Não sabia exatamente como agir. Tentou disfarçar. Fingiu que não estava prestando atenção.
Ela desligou o celular e entregou o cartão a atendente.

ELA: O endereço tá certo. Meu chefe disse que talvez ele resista um pouco a receber. Sabe como é, né? Mas insistam. É um presente muito importante. Eles brigaram. É uma tentativa de fazer as pazes.

E foi embora.
Sorria. Estava satisfeita. Era sua vingança.
Mas durou pouco.
Morreu uma semana depois. Atropelada.
As investigações se transformaram em lenda. As testemunhas disseram que o carro era dirigido pela mulher maravilha.

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