sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Esperando #3: na fila do banco


Ele está dentro do banco, na fila. Olha pra uma mulher a sua frente. Tenta puxar assunto.

ELE: Você gosta de sorvete?

Ela não responde. Ele insiste.

ELE: Eu tenho um pouco de sorvete aqui na minha bolsa, quer?

Ela continua ignorando. Ninguém presta atenção.
Ele continua.

ELE: Pode pegar um pouco, não precisa ficar com vergonha. Pega um pouco, vai. Pode pegar.

Ela permanece em silêncio. Ele acha que é timidez.
Ninguém presta atenção nele, na conversa ou na mulher.
Há coisas mais importantes para todos ali.

ELE: Minha mãe que me ensinou a fazer. Ela ia gostar de você. Qualquer hora te apresento ela. Sua mãe é viva? A minha, morreu quando eu tinha 11 anos. Mas, guardei ela no freezer. Ela era pequenininha, sabe?, coube direitinho no espaço que tinha do lado do irmão. Pensei que um dia, quem sabe, dá até pra ressuscitar eles dois. Ou, pelo menos, um dos dois. Eu fico esperando, né? Esses cientistas sempre aparecem com coisas novas, de repente... E, além de tudo, eles nem ocupam tanto espaço. Só é um pouco chato quando tem que descongelar o freezer. Mas eu só faço isso de vez em quando mesmo.

Silêncio.
Ninguém tem nenhum tipo de reação.
Ele se vira e começa a conversar com a mulher que está atrás dele.

ELE: Já te contei a história da minha mãe?

Ela também não responde. Mas ele não precisa de respostas.
Ao menos, não das dela.

ELE: O pai dela queria que ela fosse advogada. Aí, ela foi estudar economia. O pai dela, meu avô, não era um cara muito legal. Ele batia na minha avó. Um dia, minha mãe colocou veneno na comida dele. Minha avó encontrou ele morto no chão da cozinha. Disseram que foi infarte. A sua mãe é legal?

Silêncio.

ELE: Eu me dava muito bem com a minha. Mas, aí, ela resolver começar a namorar um cara. Eu não gostava dele. Imagina: querendo roubar minha mãe de mim. Cortei a cabeça dele com um machado. Minha mãe ficou chorando muito, brigou comigo, aí eu me irritei e cortei a cabeça dela também. Não queria fazer isso, mas ela praticamente me obrigou. Mas, tudo bem. Depois a gente fez as pazes. Sabe como é, né? No fundo a gente é sangue do mesmo sangue.

O caixa chama o próximo. Não é ele.
A vez dele nunca chega.

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