quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Do oitavo andar ou Amanhã a gente se fala

Janeiro é foda, pensou.
Foi até a varanda. Estava quente. Muito quente. Mas não era só janeiro.
Olhou atentamente para baixo. Madrugada, não havia ninguém. Um gramado, parte do estacionamento, um corredor.
E se eu pulasse?, pensou.
Não estava deprimido, nada disso. Tinha sido abandonado, mas abandonos sempre foram constantes em sua vida. Dessa vez, a única diferença é que havia um motivo. Ainda assim, queria pular.
Pegou uma cadeira e colocou perto do parapeito. Subiu na cadeira e olhou de novo.
Alto, foi o pensamento acompanhado por um sopro leve entre os lábios meio abertos. Suava um pouco. Não havia nenhum vento. Estava tudo parado. E pensou em sua vida.
Ninguém vai perceber se eu pular, sussurrou sozinho.
Desceu da cadeira e foi até a sala. Olhou para o telefone sobre a mesa e parou por uns segundos, até que decidiu fazer uma ligação.
Uma voz feminina atendeu do outro lado. Sonolenta. Estava tarde. Era tarde.
O que você quer? Queria falar com você, tá tudo bem? Tá meio tarde. Eu sei, como você tá? Tá tudo bem.
Silêncio.
Era só isso? Era.
Não era. Tinha muita coisa a dizer. Não sabia como começar.
Mas era tarde.
Então, tá, boa noite. Boa noite.
Ela desligou. Ele mandou um beijo, que ela não ouviu.
Ela chorou por toda a noite.
Ele retornou a varanda e enviou uma mensagem de texto para ela.
Amanhã a gente se fala.
Não houve resposta.
Com as mãos deu impulso no parapeito, ignorando a cadeira, e pulou.
Do oitavo andar.

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