segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Bancos altos


Eu não sou difícil de ler, ela disse, já perto dele, logo após entrar no café. Sentou. Não perguntou nada. Nem estendeu a mão ou deu um beijo. Bem rápido, disse que não tolerava a incerteza, a fraqueza e a covardia. Que não queria nada pela metade. Não era mais criança. Amava. E fazia isso com intensidade. Não só as pessoas. Aliás, quase nenhuma. Mas amava. Intransitivamente. Eram bancos altos, numa mesa próxima ao balcão. 
Continuou.
Falou por horas, sem que ele se movesse. Era assim que gostava das suas conversas. Atenção.
Enquanto falava, a garçonete trouxe água pra ela e um espresso pra ele.
Ao fim, ele acenou com a cabeça. Ela entendeu aquilo com um gesto de aceitação. Mais que isso, que ele concordava.
Foi então que ela bateu com o seu copo na mesa.
Então, por que você age desse jeito?, perguntou já de pé, alto, gerando um certo constrangimento em todos no café. A garçonete que levava um segundo espresso, ficou no meio do caminho. Não sabia o que fazer.
Ele também não. Pensava que aqueles bancos favoreceram o gesto dela. Era o meio do caminho para o estar de pé. Tinha lido uma vez, numa revista dela, na casa dela, que bancos altos facilitavam refeições rápidas em cozinhas com ilha. 
Ela permaneceu. Firme. O corpo curvado em direção ao dele, inquisidor. Ele olhando. Todos olhando. O tempo suspenso.
Lentamente, deixou o corpo descer até o banco de novo. Ele pode, enfim, respirar. A garçonete completou seu gesto em direção a mesa. Deixou o espresso lá, quase se desculpando. Ele tremia um pouco. Decidiu não mexer na xícara enquanto pensava, ainda, nos bancos. Não entendia nada de decoração, nem de bancos, nem de cozinhas, ainda menos com ilha. Mas entendia que aqueles bancos, ali, tinham sido um fator complicador de toda a história. 
Ela permaneceu em silêncio. Todos no café também. Era como se houvesse uma esperava coletiva por uma resposta dele.
Não, não era uma pergunta retórica. Nem ele achava que ela estava certa.
Mas não haveria resposta alguma. Não havia o que ser dito. Ela queria uma resposta que não existia. Ela queria motivos que não existiam. Ele não tinha justificativas pra nenhuma das angústias dela. Como ninguém saberia explicar exatamente os motivos da escolha dos bancos. Talvez, dissessem ser excelentes para refeições rápidas em ambientes com ilha. Mas não a verdade completa. Faltaria alguma coisa a ser explicada. Ainda que não se soubesse disso.

Nem pras dele. Que ela nem sabia existirem.

Um comentário:

  1. Gostei da construção: "amava. Intransitivamente." e da imagem: "O tempo suspenso.". A paralisação da cena, principalmente quando descreve a garçonete ("A garçonete completou seu gesto em direção a mesa."), me lembrou um curta de animação que vi em 2010, e que gostaria de lhe indicar, mas não lembro o nome (sequer lembro se foi curta!). Beijos.

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