terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Sobre conhaque e morte


Dois homens estão em um boteco, sentados em uma mesa na calçada. Um deles pede um conhaque.

UM: Sabe de que é feito isso aqui?
OUTRO: Deveria ser a base de destilado de vinho.
UM: Não é?
OUTRO: É destilado de aguardente e gengibre.
UM: Nada de alcatrão?
OUTRO: Não. Alcatrão tá no seu cigarro.
UM: Entendi.
OUTRO: Por que o assunto?
UM: O mesmo que é usado naquele conhaque ali?
OUTRO: Cara, sei lá. Por que esse papo?
UM: Tô pensando em me matar.
OUTRO: Hã?!

O potencial suicida sorri.

UM: É.
OUTRO: Por quê?
UM: Pela experiência.

O colega de bar não acredita. Fica olhando pra ele por uns segundos, esperando uma gargalhada ou qualquer sinal de que aquilo não passa de uma brincadeira.

OUTRO: Você tá falando sério mesmo?
UM: Você acha que eu iria brincar com uma coisa dessas?

Alguém que estivesse assistindo aquela cena pensaria imediatamente que era hora de parar de beber.

UM: Dá pra eu me matar de tanto beber?
OUTRO: Acho que sim.
UM: Acha?
OUTRO: Você tá falando uma parada tipo Despedida em Las Vegas?
UM: Não tinha pensado nisso.
OUTRO: É cinema, mas acho que é possível sim.
UM: Mas é demorado. Queria uma coisa mais objetiva.
OUTRO: Por que isso, cara?
UM: É a experiência.
OUTRO: De morrer?
UM: É. Você já morreu?
OUTRO: Claro que não.
UM: É isso. Queria saber como é estar morto.
OUTRO: Por quê?
UM: Tô meio de saco cheio.
OUTRO: De quê?
UM: De tudo.
OUTRO: Como assim?
UM: Ah, sei lá. Viver tá meio chato. Sempre as mesmas coisas. Acordo, trabalho, volto pra casa. No fim de semana, saio. Como umas mulheres por aí. Não sei, sempre me parece a mesma coisa, o mesmo ritual que se repete na semana seguinte.

Silêncio.
O potencial suicida tem o rosto leve.
Seu amigo está chocado.

OUTRO: Então, é isso?
UM: É.
OUTRO: Por que não dar um tiro?
UM: Não gosto de armas. Muito menos de sangue.
OUTRO: Pular de um prédio?
UM: Não gosto de altura. Nem sangue. E fico pensando em morreu na contramão atrapalhando o tráfego. Não quero atrapalhar a vida de ninguém.

Os dois continuariam a conversa completamente insólita, mas um ônibus que vinha pela avenida perdeu o controle, subiu a calçada e acertou a mesa deles.

2 comentários:

  1. Muito bom! Fico feliz de ter chegado até aqui.
    Bem, ele queria a morte e ela veio, o problema é que o amigo não queria, será que ele morreu? rsss
    Abraços!

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  2. Valeu, Mago! Continue visitando a vontade.
    Abraços

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