quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Perto do balcão do bar



Perto do balcão do bar, ele olha demoradamente para o lugar onde estão guardadas as garrafas. Sempre gostou de vinho. Pede uma Cachaça. O atendente serve e ele vira de primeira. Bate o no balcão e aponta o indicador para dele. O rapaz coloca mais uma dose. De novo, a mesma coisa. Terceira dose, terceiro gole, terceira batida. Dessa vez, o gesto é negativo. Chega de cachaça. Olha de novo para as garrafas. Pensa. Pensa no álcool. Sente o esôfago queimando, levemente. Sente o coração apertado. Pensa nela. Não entende. Gostaria de entender, mas não entende. Pede o conhaque. De alcatrão, avisa. Vira em um gole. E pensa na dor. Nas dores. O atendente pergunta se ele não gostaria de um petisco. Ele ignora, mesmo não tendo comido nada o dia inteiro. Pensa nela. Gostaria de vê-la naquele momento, mas mesmo que estivesse ali, sua visão já começava a ficar meio turva. Talvez falar com ela. Mas não. Continua sem entender. Pede mais conhaque. Toma dois, três. Começa a chorar. Não sente mais a queimação no esôfago. Chora de dor de amor. Pede uma cerveja. Garrafa no balcão, copo na mão, pensa. Gostaria de uma explicação. Está com raiva. Talvez ódio. O corpo delicadamente anestesiado. A alma, não. Dá um gole na cerveja, mas agora, são mais longos. Ela havia sido gelada. Ir embora só é simplesmente pra quem não sente, ele não entende. E pensando nisso, mata a primeira garrafa de cerveja. A segunda desce rápido, apesar da mão já não obedecer ao comando do cérebro na mesma velocidade. Ainda assim, acha que está muito suave. Pede vodka. A fala piora nitidamente. Pensa em quanto poderia beber, sem que morresse. Queria que ela morresse. Seu pensamento não está muito claro. A visão dela se mistura a outros elementos indefinidos, uma mistura de sombras e claridade pálida. Vai embora o primeiro copo. Pensa nela e em como é triste estar só. Outro. A fala já está muito lenta. Não consegue nem pensar em levantar. Pensa nela. Ela está nua, tem um quadro escuro e confuso ao fundo. Outro copo. Ela grita alguma coisa. Ele responde. Tem um sorriso débil nos lábios. Bebe outra dose. Não consegue lembrar o que bebe. Tem uma mulher, cabelos muito escuros, ela dá adeus a um jovem, não sabe quem são. Sabe que queria matar alguém. Quer matar, acha. Quer matar alguma coisa dentro de si e não sabe o que. Não consegue.

Texto publicado originalmente no Diários Gastronômicos

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