quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O ovo



Sentia que estava sendo cozido.

ELE: Tô com fome.

Ele disse alto, pra ela ouvir.
Abriu a geladeira e pegou um ovo na porta.

ELA: Vai comer agora?
ELE: Vou.

Ele respondeu com uma certa rispidez.
Era uma reação.
Não tinha certeza, era apenas uma sensação, mas achava que estava sendo cozido.

ELA: A gente precisa conversar.

Ela queria conversar.
Ele sabia o que significava aquilo.

ELE: Li num livro que quando alguém diz que precisa conversar é porque não tem nada mais a ser dito.

O fogo estava aceso. No fogão.

ELA: Eu gosto de você.
ELE: E?

A panela cheia de água estava sobre o queimador do fogão. O ovo, suspenso.

ELE: E?

Repetiu.
Mas o silêncio permaneceu.

ELA: Acho que a gente precisa ficar longe.

Soltou o ovo na panela. Um pouco de água caiu fora da panela e atingiu o queimador. Quase apagou o fogo que ainda estava aceso.

ELE: Por quê?

Silêncio.

ELA: Não sei. Mas acho que é melhor.
ELE: É muito bom saber que você tem argumentos sólidos.

Ela se irritou. Ele tampou a panela.

ELA: É isso, acho que a gente não tá se entendendo.
ELE: Claro que não, você quer ficar longe de mim e eu quero ficar perto de você. Estamos em um impasse.
ELA: Mas eu só quero ficar longe um pouco. Não é definitivo.

Silêncio.

ELA: A gente só precisa respirar. Precisa de espaço. Pensar.

Ele podia respirar bem, não achava que estava apertado e não precisava pensar.

ELE: Tem razão. Como você quiser.

A água fervia. O ovo chacoalhava levemente dentro da panela. Estava sendo cozido.


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