quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O maço de cigarros


Uma mulher, bem velha, está sentada na varanda. O carteiro passa na calçada.

CARTEIRO: Oi.
VELHA: Olá.
CARTEIRO: Tudo bem?
VELHA: Cartas?
CARTEIRO: Nada pra senhora.
VELHA: Tem certeza?
CARTEIRO: Absoluta.
VELHA: Nem contas mais eu recebo!

Silêncio. O carteiro não sabe exatamente o que dizer.

CARTEIRO: Tem uma pro seu filho. Ele tá aí?
VELHA: Não.
CARTEIRO: Está viajando?
VELHA: Não.
CARTEIRO: No trabalho?
VELHA: Não. Por quê?
CARTEIRO: Por nada. Sempre tem carta pra ele, mas nunca sei quem é. Fica uma curiosidade.
VELHA: Ele saiu. Ainda não voltou.
CARTEIRO: Entendi.
VELHA: Você é muito curioso.

A velha acha o carteiro curioso demais. Mas não deixa de responder às perguntas dele.

CARTEIRO: É que eu gosto de ver as caras das cartas, sabe?
VELHA: Não.
CARTEIRO: Deve ser coisa de carteiro.
VELHA: Não sei, nunca entreguei cartas.
CARTEIRO: Gosto de imaginar os rostos quando entrego as cartas.

Silêncio.

CARTEIRO: Mas e seu filho?
VELHA: O que tem?
CARTEIRO: Nunca vi.
VELHA: E?
CARTEIRO: Ele mora aqui mesmo?
VELHA: Mora.
CARTEIRO: Mas sempre sai a essa hora, né?
VELHA: Você é da polícia?
CARTEIRO: Não.
VELHA: Então, não enche meu saco.

Silêncio.
O carteiro esboça um sorriso, como se tivesse sido uma brincadeira da velha. Não foi, mas ela ri como se tivesse sido.

CARTEIRO: E seu marido, não está?
VELHA: Não.
CARTEIRO: Saiu?
VELHA: Também.
CARTEIRO: Foi trabalhar?
VELHA: Olha a minha idade. Meu marido é aposentado.
CARTEIRO: Então, saiu por quê?

Era manhã de Natal e tudo era grande e alegre e eram presentes e era a correria das crianças. E ele foi comprar cigarro.

VELHA: Porque não é obrigado a ficar em casa só por ser aposentado.

Não foi ausência por um tempo: havia ainda uma imagem de relance no espelho.

CARTEIRO: Não quis dizer isso.
VELHA: Velhos também andam.
CARTEIRO: Eu sei, senhora. Não falei por mal.
VELHA: Às vezes até saem de casa, acredita?

Silêncio.

VELHA: Ele só foi comprar cigarros.

E a casa se tornou um imenso corredor vazio.


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