quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A mulher no casamento chuvoso


Chovia.
Havia uma moça. Estava de branco.
Olhos embaçados, afagos e tapinhas nas costas. Um monte de gente tentava se organizar, num caos aparente. E na organização do tumulto é que se tumultuava tudo ainda mais.
E a moça longe daquilo tudo. Esperando. Como nunca.
Odiava usar branco, mas concordara. E, novamente, deveria concordar. Estava realmente linda.
Ela terminava de se arrumar. Últimos ajustes. A espera. Prende a respiração, amarra tudo, aperta. Pincel e o desenho no rosto, como uma tela. Não, não havia pintores. Mas havia uma obra de arte. Era um clichê. Mas, afinal, era um casamento.
Chovia mais forte.
E, na chuva, chegavam os convidados. Cada vez mais. Mais tumultos, olhos e tapinhas. Sorrisos distribuídos na porta e por toda igreja.
A moça, que era a noiva, pensava naquilo tudo. Engraçado. Talvez não fosse a palavra exata, mas foi a que lhe veio a mente. Riu. Um riso meio débil. Pensou naquilo tudo e começou e pensar que se sentia de uma maneira estranha. Comentou com a mãe.
Não, não era nervosismo. Nem ansiedade. Não disse isso só pensou. Diante da resposta da mãe a sua angústia, riu novamente, o mesmo riso de antes, e ficou em silêncio.
Tinha certeza que não. Ao contrário. Queria estar nervosa. Era tão ansiosa sempre. Por que não naquele dia?
Não sabia. Sentia-se calma. Como nunca.
E como era ruim sentir-se daquele jeito. Sempre se imaginou enlouquecida no dia do casamento. Era como queria estar. Descontrolada. Como nunca.
Mas, ao contrário, estava calma. Estranhamente calma. Era como se não ligasse para aquilo tudo. Para todo aquele caos. E, de fato, era o que acontecia.
Indiferença.
A palavra a ser utilizada. Definia perfeitamente seu sentimento. Pensou nisso. Dessa vez, não sorriu. Sentir daquela forma estava longe de ser seu sonho. Sonhou tanto com o casamento. E agora?
Chovia ainda mais.
O tumulto crescia na igreja. As vozes se misturavam ao som da chuva, produzindo um efeito único. Ela não perceberia, quando chegasse.
Entrou no carro. Estava pronta. Em parte.
Os coadjuvantes se organizavam na entrada. O noivo suava um pouco. Sorrisos e olhos embaçados. Muitos.
O carro dobrou a esquina e chegou à igreja. Ela pensou mais uma vez. Ela não sorria. Saiu e, sob o guarda-chuva, caminhou até a porta.
As portas se abriram. Todos puderam vê-la.
Estava de branco. Como nunca.
Odiava usar branco, mas concordara. E, novamente, deveria concordar: estava linda. Foi quando ouviu o som dos violinos. Ia começar.
Estava triste. Como sempre.


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