sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Reflexões diante da estufa


Era uma estufa, em um bar qualquer do centro. Dentro dela, uma coxinha. O dia estava bastante quente e prometia uma chuva violenta no fim da tarde. As paredes de azulejo compunham o cenário em que a caixa de metal e vidro estava inserida.
Suado que estava, pegou um guardanapo e secou a testa. Pediu uma coca-cola e encarou a estufa. Duas sardinhas, cinco ovos coloridos, três lingüiças e uma coxinha. Permaneceu alguns segundos na dúvida. Olhou cada uma das coisas disponíveis. Parou na coxinha. Foi quando pensou nela.
O quanto poderia ser insólita aquela situação, ele não sabia. Nunca pensou em reconhecera mulher que amava uma coxinha. Ela nem gostava de salgado. Nem gostava, nem odiava. Ela e a coxinha viviam uma relação de indiferença.
Ele encarou a coxinha mais uma vez. Olhou com atenção, fixando-se em cada detalhe. Nada.
Pensou no formato. Ela até estava um pouco fora de forma, mas nada parecido com aquele formato. Seria o aspecto? Todo aquele óleo em que, aparentemente, havia sido banhada a coxinha não parecia com ela. É verdade que seu cabelo era bastante oleoso, mas achava não ser essa a questão. Estava ligeiramente perdido. Começava a ficar angustiado, não compreendendo aquilo tudo. Pensava e via uma coxinha.
Foi interrompido pelo balconista, que perguntou se comeria alguma coisa. Pediu uma coxinha.
Recebeu-a num guardanapo. Logo a gordura tomou. Ele até pensou, mas não, não tinha a ver com aquilo. Apertou de leve, sentindo a consistência. Era firme. Olhou mais uma vez. Demoradamente.
O sol continuava forte. Não havia vento. O ventilador, dentro do bar, era um mero artigo de decoração. O próprio bar era uma estufa. Nela, agora, estavam juntos: ele e a coxinha.
Ele pensava nela. Só via a coxinha, mas pensava nela. Os dois juntos, dentro de uma estufa. Não, não era isso. Afastou aquele pensamento e se concentrou no salgado e sua existência concreta. Fixou os olhos naquele monte de massa e frango a sua frente.
Mordeu, mastigou, engoliu. Não sentiu o gosto. Tentou de novo. Mordeu, mastigou. Dessa vez, devagar, bem devagar. Engoliu. Nada. Comeu a coxinha inteira e nada. Não havia sabor. Foi quando pensou nela de novo.


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