domingo, 20 de novembro de 2011

Vinho e cebolas


ELE e ELA estão na cozinha. Sobre o balcão, duas taças de vinho e um prato vazio.
ELE está cortando uma cebola.

ELE: Corta a cebola ao meio. Depois, vai cortando em fatias bem finas. Muito finas mesmo.
ELA: Tô vendo.
ELE: Aí, você coloca no forno com as outras coisas.
ELA: Ingredientes.
ELE: Isso.

ELA ri.

ELE: Não sou apresentador de tv. Eles é que chamam comida de ingrediente.
ELA: Não importa. Gostei do prato.
ELE: Pega mais vinho?

ELA faz que sim com a cabeça.
Enquanto ELE fala, ELA vai até a garrafa e enche as duas taças.

ELE: O tomate vai por último. Por cima, sal, pimenta e azeite. Três horas no forno.
ELA: Isso tudo?
ELE: Pra cozinhar a batata.
ELA: Entendi.

Silêncio.

ELA: Vi você cortando aquele monte de cebola...
ELE: E?
ELA: Você não chora, né?
ELE: Nunca.
ELA: Queria ser assim.
ELE: Eu não.

Silêncio.

ELA: Gosto de você.
ELE: Eu sei.

Silêncio.
ELA bebe num gole só seu vinho. Depois, enche a taça outra vez.

ELA: Eu sei... Legal...
ELE: Não fica chateada, tá?
ELA: Por que ficaria?

Silêncio.
ELA toma seu vinho num gole só, de novo.

ELE: Não sei lidar com isso. Corto cebola com a mesma destreza com que parto corações. Gosto de beber bons vinhos e sair com mulheres bonitas, como você. Sei tocar violão e fazer comida, nada muito distante disso.
ELA: Só queria que você soubesse que me importo com você.
ELE: Não. Você queria que eu tivesse algum tipo de dívida com você.

ELA joga a taça nele, mas não acerta. A taça bate no chão e quebra.

ELA: Você é um idiota.
ELE: Sorte que você tava servindo o vinho, não cortando cebolas. Podia ser uma faca.
ELA: Sorte eu não estar removendo minas terrestres.
ELE: O que eu queria que você entendesse é que não quero e não preciso de nada disso. Trouxe você pela companhia. Mais do que isso, prefiro a solidão. Pra roubar meu tempo, tenho o trabalho; pra sugar minha alma, tenho família.
ELA: Eu só disse que gostava de você.
ELE: E eu disse que sabia. Você que se ofendeu com isso.
ELA: Queria partilhar o que tô sentindo.
ELE: Não. Queria marcar um território e ter certeza que alguém gosta de você.
ELA: É sempre bom.
ELE: Aí é que tá: esse problema é seu, não meu. Você me culpa por coisas que não tem nada a ver comigo.
ELA: Não. Tô te culpando porque você é um idiota.


"Vinho e cebolas" foi publicado em  Diários Gastronômicos . 

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