domingo, 13 de novembro de 2011

Sobre joelhos e corações ralados


Duas meninas de cinco anos correm pelo jardim. Uma delas tropeça e cai, ralando o joelho.

UMA: Droga!
OUTRA: Puxa!
UMA: Tá sangrando.
OUTRA: Sorte a sua.
UMA: Por quê?
OUTRA: Minha mãe disse no telefone pra minha tia, noutro dia, que tava com o coração sangrando.
UMA: E como é que é isso?
OUTRA: Não sei. Mas deve ser ruim, né?
UMA: Ah, mas no joelho é bem ruim. Olha como tá.
OUTRA: Tá bem feio mesmo.
UMA: Não consigo nem dobrar direito.
OUTRA: Mas, pelo menos, é no joelho.
UMA: Como assim?
OUTRA: No coração não dá pra ver. Pode ser bem pior.
UMA: Pior que isso?
OUTRA: Sei lá. Não dá pra ver. Você não fica angustiada?

Silêncio.

UMA: O que é angustiada?
OUTRA: Não sei. Minha falou no telefone com minha tia que tava angustiada.
UMA: Por quê?
OUTRA: Por causa do sangramento no coração.
UMA: Mas como é que isso?
OUTRA: Não sei. Deve ter alguma coisa a ver com o sangramento. Você não tá angustiada?
UMA: Não sei. Tô?
OUTRA: Acho que tá. Deve estar, né?
UMA: Acho que tô ficando.
OUTRA: E como é?
UMA: Não sei explicar.

Silêncio.
A menina que ralou o joelho fica encarando o ferimento.

OUTRA: Tô preocupada com você.
UMA: Por quê?
OUTRA: Minha disse, no telefone com minha tia, que tava com o coração sangrando e tão angustiada que achava que ia morrer. Você acha que vai morrer?
UMA: Não sei.
OUTRA: O que a gente faz?
UMA: Eu não quero morrer!
OUTRA: Eu também não quero que você morra...
UMA: Mas tô angustiada e meu joelho tá sangrando...
OUTRA: Não é o coração.
UMA: Poxa, é meu joelho! Você já machucou o joelho?
OUTRA: Já. Dói muito!
UMA: Você acha que o coração dói assim? Duvido!
OUTRA: Tem razão.
UMA: Não sinto que vou morrer. Mas, meu caso deve ser muito grave...
OUTRA: Será que existe um transplante de joelho?
UMA: Não sei.
OUTRA: Mas a gente precisa fazer alguma coisa!
UMA: Não sei o que fazer...

Silêncio.
A outra menina sai correndo pra dentro de casa.

OUTRA: (gritando) Eu já sei! Eu tenho a cura!

A menina machucada fica no chão do jardim, esperando a outra voltar. A outra menina volta com um vidrinho na mão.

OUTRA: Escuta: pode doer, mas você tem que ser forte.
UMA: Tá.
OUTRA: Acho que só isso pode te salvar. É mertiolate.

A outra menina passa o mertiolate no joelho da menina machucada. Ela faz uma cara feia, mas, aparentemente, melhora. Apoiada na outra, consegue levantar.

OUTRA: Tá melhor?
UMA: Tô.
OUTRA: Impressionante.
UMA: Você devia dar o mertiolate pra sua mãe.

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