quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Por uma boa higiene bucal


Ela abriu os olhos. Sem muitas imagens poéticas sobre o acordar e levantar da cama de uma mulher que habitasse as páginas da literatura, foi até o banheiro e, desviando do espelho, entrou no banho. Terminado, saiu do box desviando mais uma vez do espelho e foi em direção ao quarto, fugindo do outro também. Vestiu-se e foi comer alguma coisa. Como não havia nada que lhe interessasse na geladeira, tomou um gole da coca-cola aberta na porta. Voltou ao quarto, sempre tomando cuidado. Arrumou tudo. Estava quase pronta. Foi então escovar os dentes. Entrou no banheiro, cabeça baixa, sem levantar os olhos. Pegou a escova e passou a pasta. Foi só aí que, suavemente, ergueu o rosto e encarou o espelho ao mesmo tempo em que colocava a escova na boca. Mecanicamente começou o processo e a espuma se formou na boca. Os olhos travados. Corpo travado. Todo. Era aquilo que havia evitado até aquele momento: não queria ver o próprio rosto. Os olhos fundos indicavam sua tristeza. O vermelho não negava o choro óbvio. Não parava a escovação, mas começou a pensar em tudo, tudo que não queria pensar, que havia evitado pensar na noite anterior, que havia evitado pensar naquela manhã. Pensou nele e quase chorou. Mas não, permaneceu escovando. Lembrou do dia anterior, dele e da despedida. Lembrou que fins são sempre trágicos. Alguns dizem que pode ser cômico e ela até concordaria, não fosse com ela. Lembrou que sentira muita raiva no dia anterior e que sentia raiva naquele instante e que, ainda que não estivesse escovando os dentes, estaria com a boca cheia de espuma. Raiva: passou a escovar com força. Raiva dele, do fim. Não dava pra pensar muito com a escova na mão e a língua anestesiada pelo creme dental. Pensou nisso. E teve raiva outra vez. Dele, do fim, do creme dental, daquela rotina maldita. Levantar, tomar banho, comer, vestir uma roupa comportada, escovar os dentes e ir trabalhar. Trabalhar, comer de três em três horas, escovar os dentes após as refeições. Estava cansada. Antes e agora. Ele não tinha motivos pra ir. Mas disse que se sentia preso. Que a rotina o aprisionava. Não queria aquilo. Ela sentia a rotina, não gostava da rotina, mas gostava dele. Lutaria contra qualquer coisa. Ele não. Ela terminou de escovar os dentes. Cuspiu, enxaguou a boca, bochechou o liquido colorido que estava na estante, lavou a escova e guardou tudo no armário. Levantou a cabeça e olhou no espelho mais uma vez, encarando a si mesma. Estava pronta. Não completamente, é claro. Sentia raiva. Dele, do fim, do creme dental, da rotina, de tudo. Inclusive, da quebra da maldita rotina. No dia anterior, quando ele quis acabar com tudo, acabou com ela. Não, não estava pronta. Abriu o armário novamente, pegou a escova e o creme dental. E começou tudo outra vez.


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