sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O beijo


ELA: Você não me ama mais?
ELE: Não sei.
ELA: Nem um pouquinho?
ELE: Não sei.
ELA: E como é que faz pra saber?
ELE: Não sei.

ELA beija ELE.

ELA: E agora?
ELE: Não sei.
ELA: Me desculpa.
ELE: Tudo bem.
ELA: Pelo beijo.
ELE: Tudo bem.
ELA: Eu não devia ter feito isso.
ELE: Tudo bem.
ELA: Tudo bem, tudo bem...
ELE: Tudo bem.
ELA: Fala outra coisa!
ELE: Outra coisa.
ELA: Você sempre soube ser desagradável quando quis.
ELE: E, às vezes, eu conseguia ser desagradável mesmo sem querer.
ELA: Você sempre foi um cara muito inteligente.
ELE: O que você quer que eu diga?
ELA: Sei lá, diz que me odeia.
ELE: Te odeio.
ELA: Odeia mesmo?
ELE: Não sei. Odeio mesmo?
ELA: Você tá me perguntando?
ELE: Tô.
ELA: Por quê?
ELE: Como por quê? Você não mandou eu dizer que te odiava?
ELA: Você não me odeia?
ELE: Não sei! Mas, que merda!, eu não sei! Acaba logo com essa angústia e me diz o que você quer ouvir.
ELA: Eu quero ouvir alguma verdade!
ELE: Por exemplo?
ELA: A gente podia ter dado certo.
ELE: Também podia ter sido pior.
ELA: Pior do que foi?
ELE: Melhor do que foi?
ELA: Você acha que foi bom?
ELE: Não sei.
ELA: Não sei, não sei...
ELE: Droga! Pára com isso! Não sei e pronto.
ELA: Tá bem. Vou parar. É melhor eu ir embora.
ELE: Pra onde você vai?
ELA: Não é da sua conta.
ELE: Tem razão.
ELA: Eu sei.

Silêncio.

ELE: Sabe, desculpa por não retribuir o beijo.
ELA: Eu nem sei porque fiz aquilo.
ELE: Não tava com vontade?
ELA: Tava.
ELE: Então? Isso basta.
ELA: A primeira coisa que a gente aprende na vida é que não pode fazer tudo que tem vontade.
ELE: Mas não devia ser assim.
ELA: Então, bate um papo com Deus e pede pra ele criar o mundo de novo.
ELE: Você sabe que eu não acredito nessas coisas.
ELA: Esqueci.
ELE: Não esqueceu nada. Falou só pra provocar.
ELA: Tem razão.
ELE: Na verdade, o que eu acredito menos ainda é que se fosse possível recomeçar o mundo de novo, do zero, mesmo tendo a disposição a nossa experiência, faríamos tudo errado de novo, cometeriam todas as nossas mesmas falhas, teríamos todos os nossos mesmos defeitos, todos os nossos mesmos desvios.

Silêncio.

ELE: Eu não consegui retribuir o seu beijo.
ELA: Eu percebi.
ELE: Não, não era isso que eu queria dizer.
ELA: Então, o quê?
ELE: É simples: o problema é comigo. Não tem nada a ver com você.
ELA: Você é muito cretino.
ELE: Cretino...
ELA: Eu vou embora.

Silêncio.
ELA vai em direção a porta.
ELE não impede.
ELA para, em frente a porta.

ELA: Se você voltasse, eu te aceitava.


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