quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O almoço


PAI e FILHO estão na sala de jantar.

PAI: Olha o que eu trouxe de você!
FILHO: O que é?
PAI: Adivinha.
FILHO: Não sei.
PAI: Adivinha.
FILHO: Não sei, pai.
PAI: Chuta, então.

O filho pensa o quanto seria divertido, prato na mesa, dar um belo chute naquilo tudo. Imagina uma coxa de frango voando em câmera lenta, enquanto grãos de arroz se espalham pela mesa, envoltos no caldo do feijão.

FILHO: Frango.
PAI: Com...
FILHO: Não sei, pai. Dá logo a comida.
PAI: Poxa... estragando a brincadeira, hein? É arroz, feijão, frango e purê.

Silêncio.
O filho não aparenta nenhum sinal de empolgação.

PAI: Sua comida favorita, não?
FILHO: É.

O filho responde sem muita firmeza. Apenas concorda, como querendo encerrar definitivamente aquele assunto.

PAI: Sua mãe sempre fazia.

Silêncio.

PAI: Come pra não esfriar.

Após o pai quebrar o silêncio, o filho pega o garfo. Mas não começa a comer imediatamente. Ele observa os talheres por um tempo. Inclina-os para ver o reflexo da luz que vem do teto da sala de jantar. Depois de algum tempo, leva a primeira garfada a boca.

FILHO: Está ótimo.

O pai sorri. Mas o filho não está comendo.

PAI: Gostou mesmo?
FILHO: Tá ótimo, pai.

O filho, porém, não consegue engolir. Nem sentir gosto de nada. Mastiga. Nada. Mastiga, mastiga, mastiga e nada. Não desce. Tenta colocar mais uma garfada, mas a comida não desce. Bebe um pouco de água e coloca mais uma garfada na boca. Nada. O pai olha. O filho está numa espécie de transe, mastigando. A comida não desce. Ele olha pro pedaço de frango, é uma coxa, e imagina o frango perneta voando. Sente vontade de rir, mas a boca está cheia de comida. Mas fala.

FILHO: Pai, como pode um frango perneta voar?

O pai não entende, o filho ri. A boca está cheia de comida, nada desce, mas ele insiste na combinação água e nova garfada. E ri. O pai, observando aquilo tudo, ri também.

FILHO: A falta de uma coxa afeta o vôo do frango?

O pai ri mais uma vez. O filho coloca mais comida dentro da boca. Mais água. E mais comida.

FILHO: Mas, afinal, o frango, mesmo com todas as suas coxas, pode voar?

O pai já não acha muita graça. Mantém apenas o sorriso armado. O filho leva mais uma vez o garfo a boca. Esta cada vez mais cheia. Não consegue engolir nada, desde o início da refeição. Tenta mais um pouco de água. Não funciona.

FILHO: Aliás, essa coxa é de frango ou de galinha?

O maxilar dói. Há muita comida dentro da boca. Não há mais água. O pai não consegue mais reagir. O silêncio só não é completo pelo barulho da mastigação. O filho não aguenta mais: cospe toda aquela massa disforme sobre a mesa.

FILHO: Por que a mamãe não está mais aqui?


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